21 de janeiro de 2018

BOIADEIROS

Chovia forte, quando os boiadeiros entraram na vila em seus cavalos, após deixar o gado na fazenda do João Monteiro, um pouco antes do Morro do Marta. Vinham pela rua principal, depois de passar pela pracinha em frente à capela de Santo Antônio e se dirigiam à cocheira do Jair Passarelo.
Embora com os semblantes cansados, os cavalos já um tanto alquebrados pela lida, ainda assim, tinham um ar solene. Todos trajavam capa gaúcha e portavam chapéu de feltro de aba larga, barbicacho ajustado na altura do queixo. Eram seis, destacando-se à frente o líder do grupo, cujo cavalo parecia maior que os demais. A chuva forte compunha o quadro que o menino admirava. O líder à frente, e os demais distribuídos pelos lados, um pouco atrás. A água escorria de seus chapéus e de suas capas. As ferraduras produziam um som que se misturava ao tamborilar das gotas grossas a cair sobre o calçamento de paralelepípedo. A não ser por isso e mais um ou outro bufo dos animais, não havia outro som no ar. Eles não se falavam. Vinham em silêncio. Era como se uma procissão equestre, muda, acompanhasse algum falecido ilustre, a merecer quietude respeitosa, naquele fim de tarde escurecida pelo aguaceiro de verão que se precipitava do céu.
O menino estava extasiado diante da cena. Em sua fértil imaginação infantil, aqueles homens pareciam mensageiros de notícias graves. Talvez fossem os Cavaleiros do Apocalipse, de que tanto ouvia falar nas pregações do pároco nas missas mensais na capelinha. Ainda que um frio lhe corresse pela pele, não podia deixar de admirar a solenidade da cena. Alguns anos depois é que a viu reproduzida, de forma bem parecida, em um filme norte-americano sobre o velho oeste.
Aos poucos, a tropa em marcha passou lentamente diante da porta da venda em que ele se encontrava. Seus olhos acompanharam o movimento dos animais levando seus condutores até o pouso final. Um a um, deixaram a rua e entraram na cocheira.
As nuvens do temporal anteciparam a obscuridade da noite – lâmpadas ainda não acesas – e produziram o efeito cinematográfico de fade out em cada cavaleiro a entrar naquele espaço.
E o menino sonhou um dia ter uma capa gaúcha como aquelas, para assumir a solenidade da postura observada em cada um dos cavaleiros que desfilaram à sua frente.
Hoje o menino é um homem idoso. Vivenciou dezenas de anos de sucessivos fotogramas guardados em seu cérebro. Percorreu caminhos diversos, cheios de peripécias e sobressaltos. Andou por montanhas e planícies. Viu povos e costumes exóticos. Encantou-se com cada coisa que descobriu ao longo da caminhada. Mas aquela imagem ficou definitivamente gravada em sua memória, de onde, vez e outra, assoma à realidade do seu quotidiano e o leva de imediato àquele mesmo espaço da infância, àquela mesma cena mágica, cheia de mistérios e magia, diante da porta da venda de seu pai.
Aquele menino sou eu.

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Imagem em selariagauchauberaba.com.br.

11 de janeiro de 2018

ENQUANTO MINHA GUITARRA CHORA SUAVEMENTE

(Publicado originalmente em Gritos&Bochichos, em 4/2/2013.)
Uma das minhas frustrações na vida é não ser guitarrista. Mas não um guitarrista qualquer. Queria ser um senhor guitarrista, como David Gilmour, para mim o maior de todos (Não me venham com razões técnicas, porque isto é coisa de sentimento, inexplicável.)
Quando jovem, tentei aprender a tocar violão. Eu e meu irmão Gutenberg compramos um, à prestação, na loja que era sua xará, Gráfica Gutenberg, em Bom Jesus, nos áureos anos 60.
Quando cheguei a Niterói, em 67, dedilhava alguma coisa despretensiosa e alguns dos antigos companheiros de pensão imaginam até hoje, como já me disseram, que eu soubesse tocar.
Meu irmão hoje, além de compor, toca bem. O pouco que eu sabia acabou. A única música de que ainda me lembro é The house of the rising sun, canção folclórica norte-americana também gravada pelos ingleses The Animals, de Eric Burdon, coqueluche à época: There is a house in New Orleans / They call the rising sun...
E música, como qualquer outra arte, funciona mais ou menos assim: ou você é chamado por ela, e desenvolve um caso sério, ou é meramente um espectador. Pois, quanto à música, sou um mero espectador, ou melhor, ouvinte. Talvez até um pouco mais atento. Mas parei por aí. Se não podia ser um David Gilmour, melhor seria não tentar. Preferi permanecer na plateia, deixando que ele e todos os grandes guitarristas façam isso por mim. Por nós!
E, como sempre ocorre, às vezes uns fazem e outros executam. Uns compõem, outros interpretam. Felizes os que compõem e interpretam ao mesmo tempo. Na Itália, pela década de sessenta, com o surgimento de diversos compositores que também cantavam suas músicas, criou-se a palavra cantautore, para distingui-los dos que eram apenas intérpretes.
Porém, este papo quase furado com que preambulo este texto é apenas para dizer para vocês que a célebre e magistral canção dos Beatles While my guitar gently weeps, de autoria do meu beatle preferido, George Harrison (Também não me perguntem por quê!), com diversas gravações espetaculares, recebeu de Peter Frampton talvez aquela mais bela, mais sensível a que seu título alude. Sua guitarra chora suavemente na gravação feita para seu álbum Now, de 2003. Tanto o riff inicial, quanto o solo no meio da canção são das coisas mais belas que a guitarra pôde fazer. Parece que, ali, Frampton entrou em estado de graça. Fez um pacto com o Cramulhão para executar como o fez.
E reparem que, além dos Beatles e de Frampton, há outras interpretações sensacionais, como de Eric Clapton e o próprio Harrison; de Tom Petty, coadjuvado por Prince, Jeff Lynne, Dhani Harrison e Steve Winwood, dentre outros, no tributo a Harrison no Royal Albert Hall; de Santana, com o vocal fantástico de Indie Arie e o violoncelo clássico de Yo-Yo Ma; de Jeff Healey e sua surpreendente guitarra tocada sobre o colo; da versão explosiva de Toto com a guitarra incendiária de Steve Lukather; da versão impressionante de Jake Shimabukuro no ukelelê, dentre outras que não repassei ou não conheço.
Para mim, no entanto, se sobressai a interpretação dada por Peter Frampton, hoje um senhor calvo, mas com a sensibilidade para fazer chorar sua guitarra de tal forma, que me leva ainda a pensar, como nos anos 60/70, que um dia a música possa nos salvar da estupidez da guerra e da violência.
É o que sinto.
E também não me perguntem por quê!

Capa do cd Now, de Peter Frampton, de 2003.


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Se quiser ouvir a gravação de Frampton, clique aqui.

22 de dezembro de 2017

BOM NATAL E FELIZ ANO NOVO

Em 2010 postei este poema de Natal. Em 2012, com preguiça e sem encontrar outras palavras, repeti-o. 2017 está um ano muito fraco para ideias novas, em vista de tantos problemas. E, acumulando-se a preguiça renitente, repito-o novamente.



Aos amigos
E aos parentes,
Aos crentes
E aos descrentes,
Aos que se bastam
E aos carentes,
Aos desestimulados
E aos renitentes,
A todos nós, enfim, gente,
Um NATAL cheio de alegrias
E um ANO NOVO
Com 365 dias!
E, se isso for pouco,
Que não haja sufoco,
Que não falte dinheiro,
Que tenhamos saúde,
Cada um a seu jeito,
E, se não for pedir muito,
Que a felicidade abunde!
Mas com todo o respeito.

Natal brasileiro, de Leo Macial (em arteblog.com.br).

7 de dezembro de 2017

BORBOTÕES DE LÁGRIMAS

Na praça
Cantam pássaros próximo de mim
A esta hora
Falta água na minha casa
E por ironia
Chove uma chuva fina sobre o chafariz

Dos meus olhos
Não brotam borbotões de lágrimas
Meus rios secaram no estio do último inverno
E só mesmo os temporais tardios
Para inundar seus tristes leitos vazios
Como previsto na última estação

Plantamos desertos pelos campos
Ateamos fogo à terra
Até que não haja mais nada a arder
A não ser os nossos olhos ressequidos
Feridos pela fuligem ácida que cairá do céu
Como uma chuva maldita


Foto do autor.

29 de novembro de 2017

CERTOS PREGÕES

Meu netinho é encantado com o pregão da caminhonete que passa pelas ruas do bairro à cata de velharias:
- Panela velha, máquina de lavar velha, geladeira velha!
A emissão que se espalha no ar vem metalizada pela baixa qualidade do sistema de som do carro. Talvez seja isso o mais interessante para ele. A voz do locutor sai espremida, rascante, metálica:
- Ventilador velho, liquidificador velho, geladeira velha!
Certo dia, rindo, ele emendou:
- Vovô velho!
Mas ficou chateado quando eu disse “Francisco velho!”.
Os pregões são formas orais tradicionais usadas por ambulantes para anunciar a mercadoria à venda. Vem desde que o homem saiu com os produtos de sua colheita ao encontro de possíveis compradores, pelas ruas das vilas e das cidades. Era preciso anunciar.
No caso específico da caminhonete do ferro-velho, o que se anuncia é o que se compra, diferentemente dos pregões tradicionais.
Normalmente os pregões se resumem a enunciar o nome da mercadoria ou do seu vendedor:
- Olha a banana! Olha o bananeiro!
- Olha o peixeiro!
- Olha a laranja! Olha o laranjeiro!
Um ou outro tinham formas mais elaboradas, como versinhos rústicos, como do vendedor de pirulitos:
- Olha o pirulito americano: bota na boca e sai “chupano”!
Uns usavam o humor para chamar a atenção:
- Moça bonita não paga. Mas também não leva!
Escuto pregões desde que me entendo por gente. Lá na minha Carabuçu natal eles existiam. Eu mesmo já os produzi, em moleque. Saía à venda das laranjas da minha avó. Confesso, no entanto, que tinha certa vergonha de sair gritando pelas ruas miúdas da vila.
Quando cheguei a Niterói, em 1967, deparei com o centro da cidade coalhada de camelôs, uns mais histriônicos que outros, mas todos com seus pregões reconhecidos, à cata de clientes.
Havia um que sempre se postava na esquina da Avenida Amaral Peixoto com a Rua Visconde do Uruguai e anunciava, com sua voz espremida e ligeiramente gutural, um pregão bem diferente, só decodificado ao se ver o ele que vendia:
- Quem tem criança na escola! Quem tem criança na escola!
O /s/ de escola saía bastante chiado, como é comum ao carioca. Assim era a forma de tentar vender seus cadernos.
Outro, que vendia traquitanas para a cozinha, nas imediações, dizia uma frase também bem estranha, enquanto manipulava o objeto:
- Não resta prática, nem tampouco habilidade!
E eu ficava intrigado com aquele verbo restar na frase. Até que meu amigo Valter Bretas esclareceu que o camelô deveria querer dizer “não requer prática”. Era realmente isso: o treco era de fácil manejo.
Tempos depois tive minha atenção despertada pelos camelôs de La Paz, na Bolívia. Observei que seus pregões tinham uma estrutura fixa, na maior parte das vezes: o nome da mercadoria era enunciado duas vez na forma normal e uma terceira vez, na forma diminutiva.
- Pañuelos! Pañuelos! Pañuelitos!
- Chompas! Chompas! Chompitas!
- Ponchos! Ponchos! Ponchitos!
Ainda que o terceiro termo não estivesse no diminutivo, a forma tríplice era uma constante:
- Chicha blanca! Chica blanca! Chicha blanca!
Outro camelô, este já no Rio de Janeiro, no calçadão da Rua São José, lá pelos anos 70/80, era uma figura e tanto. Estava sempre de paletó e gravata, óculos escuros, cabelos cortados rentes. Vendia baralhos, que expunha sobre sua pequena banca, e pomada japonesa, que ficava escondida sob ela. Os baralhos eram anunciados aos brados; a pomada japonesa, contudo, era apregoada em um tom bem baixo.
- BARALHOS DE NYLON! BARALHOS DE PLÁSTICO! Pomada japonesa!
Cada um encontra o tom certo, o ritmo adequado, a fórmula capaz de encantar o possível comprador. Outros, contudo, por certas limitações, acabam criando quase um pânico nos ouvintes. Era o caso do Zé do Ovo, já citado aqui em outra postagem.
Zé do Ovo era um pobre coitado, deserdado da vida e do juízo perfeito, que minha sogra como que adotou ainda adolescente. Por vezes ele passava uma temporada em sua casa e era tratado com um filho a mais. Mas sempre apresentou algum transtorno e era tido como meio lelé da cuca. Quando eu o conheci, ele já era um homem feito e sempre estava por lá. Em alguns momentos, colhia folhas de couve da horta da dona Judith, colocava numa cesta e saía a apregoar pelas ruas de Miracema:
- Olha o “coveiro”! Olha o “coveiro”!
Mas, normalmente, voltava para casa todo feliz, com seu sorriso banguela, a cesta vazia e o dinheirinho miúdo no bolso.

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Jean Baptiste Debret, Negras quitandeiras, séc. 19 (em pinterest.com)..

20 de novembro de 2017

DEU CAVALO DE AÇO NA CABEÇA

Esta última semana, a da comemoração da Proclamação da Infeliz República do Brasil, também foi, não sei por que cargas d’água ou conjunção astral, a semana do sapato Cavalo de Aço. Pelo menos comigo e meus circunstantes.
Estava bebendo uma cerveja com uns amigos e um deles, metido a me conhecer profundamente, se saiu com essa, depois que alguém lembrou os tempos daquele fatídico sapato:
- Aposto que o Saint-Clair nunca usou o Cavalo de Aço!
Como dizia o Jaguar, falei, para certo pasmo de alguns:
- Ledo engano Ivo seu! Eu também já tive esse maldito sapato lá pelo início dos anos 70.
Jovem, então, e um pouco suscetível aos movimentos da moda, fui levado de roldão pela onda do Cavalo de Aço e comprei um par para mim.
O tal sapato tinha como diferencial um solado tipo plataforma, que elevava seu usuário a cerca de três ou quatro centímetros acima do rés do chão. E tinha um visual abrutalhado. Não era um sapato fru-fru. Era coisa para destacar a possível masculinidade do seu dono.
O meu, além da tal altitude elevada, era feito de um couro imitando jacaré e tinha uma fivelona nas laterais. Bico fino, como convinha, e na cor marrom escuro. Era uma visão!
Quando o levei para a pensão da Dona Dinorah, onde morava por essa ocasião, na Rua Pereira da Silva, causei espanto. Fiquei soberbo diante dos meus colegas. Era um sábado, pela hora do almoço. Naquele dia, haveria a estreia do Cavalo de Aço.
Não sei se todos sabem, mas também houve uma novela com o mesmo nome, que, tenho a impressão, veio na onda do modelo do sapato. Embora eu não acompanhasse novela, tenho a memória de que uma das personagens masculinas ostentava em seus pés aquele troço.
Pois muito bem.
No dia seguinte a esse encontro com os amigos – este último sábado – na casa da minha mãe, mais uma vez surgiu a referência ao tal sapato. Nem me lembro de quem puxou o assunto. Até mesmo meu primo José Manuel, mais novo do que eu dezessete anos, lembrou a chamada da novela e algumas coisas que a identificavam.
Estranhei o assunto voltar à tona. É que isso é coisa de somenos importância. Talvez seja porque estejamos de saco cheio do noticiário político, então tentamos desanuviar as conversas lembrando de coisas assim.
Agora, de volta à pensão da Dona Dinorah, naquele sábado de estreia dos anos 70, me vejo outra vez descendo a escada de madeira do andar superior, onde os rapazes se hospedavam, e o térreo da velha casa geminada, hoje inexistente. O barulho produzido pelo salto volumoso nas tábuas já chamava a atenção. Era o Saint-Clair estreando o Cavalo de Aço!
Saí pela noite de Niterói e, ao voltar, já passada a meia-noite, tive o cuidado de remover dos pés aquelas ferraduras duplas de couro maciço, a fim de não acordar os moradores do andar de baixo.
Foi um alívio! Pois, além de tudo, comprimia os pés com uma sem-cerimônia infernal!
No dia seguinte, domingo, voltei a usar – tinha-me custado caro –, e agora pela última vez, aquela espécie de tanque de guerra minúsculo, adaptado – mal, diga-se de passagem – ao pé humano.
Alguns sábados depois, estamos Michel e eu sentados no parapeito da varanda, numa tarde fresca, jogando conversa fora e vendo a vida passar em forma de moças bonitas, quando chegou um senhor, vestido humildemente, de chapéu à cabeça e bigode quadrado sobre a platibanda do beiço, a nos solicitar ajuda:
- Será que os meninos não têm uma muda de roupa e um par de sapatos fora de uso para me dar?
Michel, também meu conterrâneo de Bom Jesus do Itabapoana, disse que tinha uma calça e uma camisa que já não usava. Eu então me lembrei do maldito Cavalo de Aço e disse ao homem que tinha o tal par de sapatos.
- Que número o senhor calça?
- Quarenta.
Era o meu número! Pedimos que aguardasse e subimos para pegar as doações. De volta, entregamos a muda de roupa e o par de sapatos, todos ainda muito bem conservados, sobretudo o sapato, usado apenas duas vezes.
O homem ficou tão feliz, que quis saber nossos nomes.
- Qual o seu nome? – dirigindo-se ao Michel.
- Michel.
- Muito obrigado, seu Michel! Gostei muito! E o seu? – agora dirigindo-se a mim.
- Saint-Clair.
- Checré?! Que nome esquisito, sô!
- Me devolve o sapato agora! – disse em tom de falsa ameaça – O senhor me pede um par de sapato, pergunta meu nome e diz que ele é esquisito! Pode me devolver!
- Desculpe, seu Checré! É que é muito difice falar ele!
O homem saiu levando seus presentes, e eu e Michel demos boas gargalhadas com a história.
Agora estou eu aqui compondo este texto, motivado pelo sapato Cavalo de Aço. É ou não é um conluio astral para nos levar a até fazer uma fezinha no bicho?
- Põe dez mangos aí no cavalo!
Vai que dê cavalo na cabeça!

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Imagem em allexpress.com.

29 de outubro de 2017

CAÇOADA E CAÇOADORES

Um dos divertimentos preferidos da minha Carabuçu da infância e da adolescência era a caçoada. Havia na vila um bom número de moradores cujo entretenimento predileto era caçoar dos outros.

Talvez aqui algum leitor citadino, sem a experiência das coisas do interior, não atine bem para o que seja este tipo de divertimento ou esporte, sei lá.

É que, por aquela altura, a vila não oferecia muitas opções de lazer. A folhinha marcava os anos cinquenta e sessenta do século passado. Então algumas pessoas se divertiam em caçoar dos outros.

Mas você, leitor amigo, não sabe o que é caçoar? Vou esclarecer, transcrevendo as definições do dicionário Michaelis, a fim de que você entenda como isso poderia funcionar.

No Dicionário Michaelis (michaelis.uol.com.br/moderno-portugues) estão registradas as seguintes acepções da palavra: “1 Dizer ou fazer algo para causar riso ou chacota; fazer troça a, zombar de; cachetar, ridicularizar, zoar: Caçoava os adversários políticos. Não caçoo de ninguém. Você caçoa, sim.
2 Mentir de brincadeira: Vai caçoar pra lá; matou nada!
3 COLOQ Desacreditar; não dar importância, duvidar: Não podia acreditar; afinal, a vida toda caçoara de histórias de fantasmas.
4 Fazer caçoadas com a intenção de provocar alguém ou apenas para brincar; atiçar, implicar, instigar: Caçoa do apelido do irmão até provocá-lo para briga.”

Alguns carabucenses (cuidado com a palavra) se destacavam.

Niltinho Pontes, por exemplo. Bancário do extingo BERJ – Banco do Estado do Rio de Janeiro, que tinha um posto na vila, Niltinho era uma pessoa culta, para a média da população local, o que lhe permitia caçoadas inteligentes. Ou Paulinho Sucanga, meu tio, e um dos maiores jogadores de futebol que já vi atuar, com seu jeito moleque de encarar a vida. Havia o Elias Pelanquinha também. Meu primo de terceiro grau, meio-campista do Liberdade Esporte Clube, e grande carnavalesco. Gostava de sair, durante a folia momesca, fantasiado de bebê, com um fraldão, chupeta pendurada ao pescoço, levando na mão um penico com cerveja e algumas salsichas boiando, numa sugestão nojenta para olhos mais sensíveis. Ele tirava a salsicha do líquido amarelo e a comia na frente de mulheres envergonhadas. Os irmãos Renato e Antônio Milton, irmãos do meu amigo Cabeção, grandes jogadores de sinuca, que debochavam sempre dos parceiros mais fracos. O Coberta Velha, que se destacava pela risada escandalosa, motivo do apelido, logo após suas caçoadas. Parecia uma coberta velha sendo dilacerada à força. O Elias Penudo era outro caçoador emérito. Com uma cara de sujeito sem graça, o andar meio desengonçado de marreco, vivia de caçoar o que estivesse mais próximo. Outro era o Dadá Machado, também meu primo, e cheio de deboches e brincadeiras com seus fregueses do bar. Mas do Dadá era de se esperar isso. Sua cara já o denunciava de antemão. O Moreninho barbeiro era outro brincalhão. Muito falante, como é comum aos barbeiros, cinéfilo de carteirinha, Moreninho fazia do seu salão o ponto de encontro para uma conversa descontraída e cheia de humor. Durante dois anos, fui aprendiz do ofício que ele exercia com extrema maestria e pude desfrutar daquele ambiente de saudável descontração, embora fosse um ambiente de trabalho como outro qualquer. O China alfaiate talvez fosse o maior deles. É impossível lembrar do China, hoje residente em Bom Jesus do Itabapoana, sem que venha à memória as brincadeiras que aprontava com todos. Do seu ateliê saíam tanto roupas muito bem cortadas, quanto caçoadas afiadíssimas. Aliás, China me disse há algum tempo que foi meu pai quem lhe deu o apelido, que lhe substituiu completamente o nome, Otoniel. E meu pai era um homem sisudo, de poucas palavras e ainda menos sorrisos. Mas um apelidador de marca maior.

O interessante desse tipo de brincadeira é a de que era inconsequente. Não produzia nenhum malefício ao outro, que, no fim, também acabava caindo na gargalhada – ou, como se diz lá ainda hoje, pocando de rir – e se divertindo. Era um jeito lúdico e descontraído de se estreitarem relações sociais numa vila tão pequena, em que todos se conheciam e se estimavam. Claro que havia escaramuças raras, mas, no geral, na normalidade, todos viviam em paz, no sossego das casas e das ruas. E cuidando para não cair na próxima caçoada de um desses conhecidos gozadores.


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Militão dos Santos Lima, Paisagem rural (em pinterest.com).