20 de outubro de 2017

COISAS DO INTERIOR

Na minha vila de Carabuçu, lá pelos fins de 50, princípios de 60 do século passado, Narck Pontes tinha um serviço de alto-falantes de quatro bocas, montado sobre o prédio comercial do tio Nalim, na esquina das ruas Coronel Alfredo Portugal e Coronel Antônio Olímpio de Figueiredo.
O prédio era – e ainda é – o maior da vila. Tem dois andares. E sobre a cobertura instalaram-se aquelas quatro bocas metálicas que, duas vezes por dia, faziam a trilha sonora de nossas vidas simples de gente do interior.
Nos finais de semana, o proprietário, dublê de locutor, apresentava um programa de “oferendas musicais”, assim mesmo nomeado. As pessoas escolhiam uma música para dedicar a alguém. Pagava-se, então, a módica quantia de dois cruzeiros, o preço de um picolé do Barrosinho ou do tio Tônio, por cada oferenda, e transformava seus devaneios românticos em acordes musicais.
Enquanto passeávamos na pracinha, que ficava a duas quadras da esquina do tio Nalim, ouvíamos prazerosos o som espargido das quatro bocas do sistema de som do Narck Pontes, que caprichava na locução. Algumas dedicatórias eram praticamente criptografadas:
- Alguém oferece a alguém, e esse alguém sabe quem, o samba-canção Meu vício é você, de Adelino Moreira, na voz inconfundível de Nelson Gonçalves!
E, sem o chiado comum aos toca-discos de então, o som da música enchia o ar da vila. Meu amigo José Luiz Padilha, no entanto, que morava numa vasta chácara à meia distância, sempre dizia que a continuidade das ondas sonoras dependia da direção do vento. E suas audições eram entrecortadas por instantes de silêncio e instantes de som. Mais ou menos como Lulu Santos pontua na música Certas coisas.
Certo sábado de verão, noite cálida, passeando pela Pracinha do Sabiá, ouço espantado a dedicatória que o Pedro Nunes fez para minha prima Bibinha: Boneca cobiçada.
Devo esclarecer aos mais novos que, por essa época, ainda não havia a famosa MPB – Música Popular Brasileira, como nosso cancioneiro popular viria a ser conhecido a partir do final dos anos 60, com a revolução estética trazida pela Bossa Nova, ainda incipiente, e a Tropicália, ainda em gestação. Nossas canções mais difundidas eram sambas-canções e boleros, estes de origem cubana, em que a temática amorosa falava de amores quase impossíveis entre o “poeta” e sua musa, a maior parte das vezes, uma personagem de vida airosa, como no caso de Boneca cobiçada.
Minha prima Bibinha era uma jovem tímida, simples, recatada, estudiosa, que morava em outro lugar e estava passando férias em Carabuçu. Como fosse uma moça muito bonita, certamente que despertou o interesse do Pedro Nunes. E ele não pestanejou: ofereceu a música, no meu julgamento de garoto atento, errada. E Narck Pontes propagou em ondas sonoras:
- Pedro Nunes oferece à senhorita Alba – Esse é o nome da minha prima. –, como prova de muita admiração e carinho, o bolero Boneca cobiçada, de Biá e Bolinha, na interpretação de Carlos Galhardo.
E Carlos Galhardo soltou a voz, amplificada pela aparelhagem sonora, cantando os versos a seguir:

                        Quando eu te conheci
Do amor desiludida
Fiz tudo e consegui
Dar vida à tua vida

Dois meses de aventura
O nosso amor viveu
Dois meses com ternura
Beijei os lábios teus

Porém eu já sabia
Que perto estava o fim
Pois tu não conseguias
Viver só para mim

Eu poderei morrer
Mas os meus versos não
Minha voz hás de ouvir
Ferindo o coração

Boneca cobiçada
Nas noites de sereno
Teu corpo não tem dono
Teus lábios têm veneno

Se queres que eu sofra
É grande o teu engano
Pois olha nos meus olhos
Vê que não estou chorando.              


Naquela noite, percebi que nem sempre se acerta ao tentar conquistar o coração de uma mulher. No meu entender, Pedro escolheu a música imprópria. Nem sei como minha prima reagiu a isso. Lembro-me, contudo, que não ouvi nenhum dedicatória de volta. Na minha percepção, fez-se o tal silêncio que Lulu Santos viria a cantar décadas depois. E sem sinfonia nenhuma!

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Imagem colhida em amlece.blogspot.com.br.

4 de outubro de 2017

A PRIMEIRA VEZ QUE VI OURO PRETO

(Para Eduardo Campos e Rogério Barbosa, amigos.)
Já disse por aí – ou alhures, para enobrecer o texto – que devo ter alma mineira, ainda que me considere um animal sem alma. A não ser que se entenda alma como alguma coisa interior que nos individualize, nos torne particulares no meio da multidão: esse jeito próprio de ver o mundo e nele se inserir de forma única.
Pois muito bem! Esta minha alma mineira, sobretudo barroca, chegada a um queijo e a uma pinga de alambique, foi definitivamente estabelecida em meu ser na primeira vez que vi Ouro Preto. E o encantamento pelo colonial, pelo barroco, consolidou-se com a argamassa dos prazeres gustativos que as terras das Gerais têm a capacidade de despertar em qualquer ser humano que esteja aberto a novas experiências.
E, como toda primeira vez, a minha também foi inesquecível, marcada por momentos que permanecem ainda hoje na minha memória afetiva.
Era a época do então famoso Festival de Inverno de Ouro Preto, um acontecimento organizado pelos alunos da Universidade Federal de Ouro Preto, como um contraponto de liberdade, naquilo que era possível à época, ao regime militar. Ele já acontecia há uns três ou quatro anos, quando os amigos Eduardo Campos e Rogério Barbosa propuseram a viagem, em julho de 1974.
Em um bar da Miguel de Frias, encostados ao balcão e alimentados por cervejas, planejamos a viagem, enquanto a capanga do Duda, com todos os seus documentos, era roubada do seu Fusca Acidentes do Parto, estacionado bem na frente do estabelecimento. Por essa época, não tínhamos ainda o hábito de trancar tudo, com medo de ladrões. Talvez tenha começado aí com este episódio a via crucis, que só vem agravando, por que passamos atualmente.
Tivemos – Rogério e eu – de vencer a contrariedade do Eduardo, para que a viagem não se frustrasse. Na sexta-feira seguinte, à tardinha, saímos de Niterói. A Jane ia conosco. Ainda éramos apenas namorados. E, dos quatro, apenas eu não conhecia a cidade.
Como era nosso hábito então, ficamos acampados um pouco antes da entrada da cidade. Chegamos ao camping, armamos nossas barracas, tomamos o banho e partimos para a zona urbana. Os amigos e a Jane prepararam o encontro entre mim e a cidade: a partir de determinado ponto, eu deveria fechar os olhos e só abri-los assim que fosse autorizado. Rodamos alguns quilômetros – não muitos –, até que descemos do Acidentes do Parto. De olhos fechados, saí do carro guiado pela Jane e sob o comando dos três. Assim que fiquei sobre uma calçada, tive a permissão de ver. E o que vi foi de uma beleza estonteante.
Devia ser lá pelas oito ou nove horas da noite. Em pleno quadrilátero da Praça Tiradentes, bem na esquina com a Rua Cláudio Manuel, lentamente fui abrindo os olhos e o espetáculo urbano que se descortinou aos poucos foi inesquecível: a cidade estava tomada por uma névoa baixa, que encobria os telhados dos casarões e se inundava com a luz dos lampiões. Aos poucos, fui girando o corpo, conduzindo o olhar pela praça, até dar com o Museu da Inconfidência, que ficara às minhas costas. Completara, assim, o primeiro impacto em trezentos e sessenta graus com a cidade.
Fui tomado de uma emoção incomum, até então não sentida diante das coisas feitas pelo homem. A cidade não poderia ter-se preparado de melhor forma, para que o barroco e o colonial se instalassem entre minhas preferências estéticas.
Entretanto, para não dizer que tudo fosse perfeito, observamos no centro da praça, junto à estátua de Tiradentes, um veículo estranho, carrancudo, de cor preta, antena parabólica sobre sua carroceria blindada, com letras brancas a indicar que não estávamos liberados para tudo: DOPS, a famigerada polícia política do regime militar, ali a postos para as ações de praxe.
Passados esses dois sustos, carro estacionado, ainda muito poucas pessoas nas ruas, saímos para o conhecimento do que ocorria. Subindo e descendo ladeiras, ladeadas por casarões preservados, procuramos por gente, por música, por bebida e comida. Alguns porões abrigavam bares e restaurantes, onde os jovens se reuniam para confraternizar. Num desses, fomos apresentados a certa iguaria da mais tradicional cozinha mineira: o bambá de couve. Também conhecido como mambá de couve, o prato é um tipo de mingau de fubá, acrescido de pedaços de carne de porco e tiras finas de couve. É um prato de sustança, que acompanhado por vinho em caneca, desses que hoje não mais temos coragem de beber, esquentava o peito, o estômago, as canelas e a alma. E deu a energia necessária a que percorrêssemos outras tantas ladeiras, parássemos em rodas de violão a céu aberto, confraternizássemos com grupos que passavam, até voltarmos ao camping, já entrada a madrugada, para a primeira noite de sono sob o manto colonial da lua de Ouro Preto.

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Alberto da Veiga Guignard, Paisagem de Ouro Preto, 1950 (em criticadeartebh.com).


25 de setembro de 2017

SERESTEIROS

Como nos faroestes clássicos, em que a cidadezinha era invadida periodicamente por um forasteiro mal-encarado, barba por fazer, banho por tomar, chapéu de aba larga quebrada sobre o cenho cerrado, cigarro mascado no canto da boca e duas pistolas Colt no coldre, assim também Carabuçu e Bom Jesus tinham seus invasores contumazes.
Por volta dos anos 50/60, vez e outra, apareciam forasteiros bem-falantes, comunicativos, simpatia incomodativa, barba escanhoada, brilhantina perfumada nos cabelos, beiço superior ornado por um bigode aparado a navalha Solingen e munidos de uma arma perigosa: o violão.
Chegavam chegando, sem muitas cerimônias, fazendo-se enturmados, dirigiam-se ao primeiro botequim mais bem frequentado, pediam um traçado, um rabo-de-galo, uma cerveja gelada, e puxavam conversa com o mais próximo.
Eram os tais seresteiros-viajantes. Nos moldes dos também antigos caixeiros-viajantes que saíam oferecendo suas bugigangas país afora, com suas malas recheadas de novidades, tais seresteiros iam derramar seus cantos por janelas diversas, na busca de conquistar corações desavisados de donzelas – ou nem tanto – sonhadoras.
Um desses chegou a Carabuçu, quando eu menino, e por lá ficou por certo tempo. Sacava seu violão na Pracinha do Sabiá, dedilhava seus bemóis e sustenidos e soltava sua voz tremente – o tal vibrato – em boleros e sambas-canções chorosos. Mostrou sua arte como compositor, apresentando uma canção de própria lavra, de que até poucos anos atrás eu sabia a melodia e a letra.
Até que resolveu soltar seus trinados sob o alpendre de mulher casada, tida por facilitadora de situações, e acabou levando uns contravapores da pior espécie do senhor marido da dita mulher, que o fizeram sair de Carabuçu com a cara toda amarfanhada e o violão estilhaçado em várias partes.
Dele nunca mais se soube.
Um outro, pelo mesmo tempo, e nem sei se seria o mesmo, invadiu a praça de Bom Jesus com as mesmas deletérias intenções.
Na verdade, quando se diz Bom Jesus, é preciso que se entenda como uma cidade dupla: uma no Rio de Janeiro – Bom Jesus do Itabapoana – e outra no Espírito Santo – Bom Jesus do Norte – apenas separadas pelo rio que dá o nome à primeira, mas unidas pela velha ponte de concreto.
Pois também aquele tal seresteiro ambulante, de conversa em botequim da guaxa, pediu informações sobre possíveis vítimas de seu canto de sereia. Indicaram-lhe a casa do senhor José Cordeiro, exatamente postada logo à saída da ponte, já no Espírito Santo. Seu Cordeiro morava num sobrado na diagonal da esquina em relação ao posto de gasolina de sua propriedade. Segundo o cantor de milongas apurou, seu Cordeiro era possuidor de três belas donzelas solteiras, moças discretas e de peregrinas virtudes, como assegurava A Voz do Povo, hebdomadário da outra Bom Jesus, sempre que se referia a qualquer senhora da sociedade local.

Naquela mesma noite, mal a lua cheia tomou o zênite no céu estrelado de Bom Jesus, o cantador começou a debulhar canções do repertório nacional. Começou com “oh! lua branca de fulgores e de encanto / se é verdade que ao amor tu dás abrigo”, (Lua branca), da maestrina Chiquinha Gonzaga; reforçou com “a lua vem surgindo cor de prata / lá no alto da montanha verdejante” (Malandrinha), gravada pelo mago Orlando Silva; e emendou, de enfiada, com “lá no alto a lua esquiva / está no céu tão pensativa” (Noite cheia de estrelas), do portentoso tenor Vicente Celestino.


Como nenhuma das donzelas se dispusesse a abrir a janela e se encantar com sua voz maviosa, o bardo notívago, revoltado com tanta indiferença, adaptou a letra da última canção às circunstâncias do momento e cravou, no meio da noite tranquila, “só tu dormes, não me escutas / filha-da-puta”, escandindo bem a última palavra em sílabas cristalinas. Foi o instante exato de receber pelas platibandas o jorro de mijo de três penicos cheios, lançados por Zé, Justino e Pedro Cordeiro, as supostas filhas de seu José Cordeiro, já chateados daquele cantorzinho meia-bomba a incomodar-lhes o sono tranquilo daquela noite fria de julho.

J. Emilio Rocha, Cantores seresteiros (em arterocha.blogspot.com.br).

15 de setembro de 2017

MUNDINHO


Cinco dias por semana, Mundinho trabalhava duro: caixa de banco. Dois dias consumia bebendo cachaça cerveja steinhaeger traçado de cinzano com conhaque de mel fogo paulista chope vinho tinto martini seco rabo-de-galo creme de ovos catuaba com jurubeba do norte genebra underberg com soda pau-pereira limãozinho bagaceira vodka com crush rum com coca-cola campari arak pisco aquavit saquê, dentre outras coisas. De tira-gosto: careta, cusparada, assopro, assovio, estralo de língua, estralo de dedo, rodopio de corpo, muxoxo de preto-velho hum! hum! mizifio!, grito de ajudante de bandido mexicano em películas da Pelmex iahuuuuuu! e um diabo de arroto nojento, puxado das tripas, que ninguém suportava. À distância recendia a alambique, tonel, chão de botequim. Não acendessem fósforo num raio de três metros, sob pena de explodir. Ainda assim, nem ficava bêbado.
Nos fins de semana, sempre pelas redondezas, entornando aqui e ali. Num domingo à noite, final de expediente etílico, caiu na besteira de desembaraçar um arroto caprichado, para arrematar tudo, na porta do bar do Jésus, um mosqueiro como tantos outros. O dito cujo arroto foi tão indecente, mas tão indecente, que Mundinho teve de sair correndo para não apanhar dos demais fregueses.
Chegando à antiga pensão onde morava, no vinte e nove da Pereira da Silva, a língua em forma de gravata colorida até o meio da barriga, só teve tempo de fechar a porta e deixar seus perseguidores do lado de fora.
Se o fígado tinha, até aquela altura, sustentado todas as suas estripulias, o medo foi tão grande que o transformou em abstêmio. Fundou até os A. A. em Bom Jesus do Itabapoana, entrou pros crentes e, hoje, o mais forte que bebe é café coado em coador de pano, bem temperadinho no açúcar mascavo.

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Imagem em daler.ru.
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Publicado originalmente em Gritos&Bochichos.

30 de agosto de 2017

AS MULHERES QUE MERECEM SER AMADAS

Que mulheres merecem ser amadas?
As que passeiam com seus cães pelas calçadas
As desalmadas
As que riem por nada
As que transitam suas dores escondidas
As fingidas
As autênticas
Aquelas que sofrem
As que festejam
As que estão à janela vendo a vida passar
As que lutam que labutam que usufruem
As temidas as destemidas
As intelectuais as simplórias
As que oram as que maldizem
As baixinhas as gordotas
As compridas as magrelas
As inditosas anoréxicas
As gulosas
As que não dão bola e portam seus olhares soberanos
As oferecidas
As da hora
As que estão fora do tempo há tanto tempo
As que cuidam dos seus filhos com desvelos
As que tecem teias em seus teares milenares com suas mãos de fada
As índias
As amarelas
As ruivas e as loiras
As negras as mulatas as morenas
As branquelas
E todas as demais restantes delas

Não é assim por nada
Mas toda mulher merece ser amada

Foto do autor.

21 de agosto de 2017

QUADRILHA

Tio Tatão tocava a sanfona. Eu até achava que ele não tocava assim tão bem. Mas tinha a boa vontade de estar ali. O Louro, irmão da minha mãe, batia o pandeiro, com maestria. Seu Alcino, sempre de bom humor, marcava a quadrilha, com comandos também num francês um tanto arrevesado. Embora isso eu só fosse entender algum tempo depois, ao estudar a língua de Balzac e Zola. E eu só queria dançar com a Rosélia, uma menina morena linda, de cabelos lisos, sorriso de dentes branquinhos, irmã dos meus parceiros Romildo e Ronei. Ou com a Marieta, outra belezura de menina, branquinha dos olhos claros, cabelos escuros curtos, irmã dos meus amigos Zito e Ronaldo. Ou com a Ana Maria, outra moreninha linda, magrelinha, olhos verdes, filha do seu Torquato.
Mas acho que nunca consegui tê-las como meus pares fixos durante a dança da quadrilha, pelas festas juninas do Grupo Escolar Marcílio Dias, lá na minha terrinha.
Contudo não me mortificava por isso. Sabia que, ao atender o comando do seu Alcino para trocar de par – “Tour com o par da direita!” –, num dado instante, eu rodopiaria com elas. E me sentiria quase nas nuvens.
Dançar a quadrilha junina era a experiência mais sensual que eu podia experimentar lá pelos meus dez–doze anos. Pegava a mão da menina, passava o braço por sua cintura, chegava meu rosto perto do dela, sentia seu cabelo esbarrar em mim, e de imediato saía do chão da minha escola em Carabuçu e entrava em órbita na vastidão daqueles céus estrelados de junho.
Pelo menos, a timidez produzia essas compensações, para não me deixar ainda mais frustrado. Como eu gostava daquele tempo das comemorações juninas! Jamais faltava aos ensaios, normalmente após as aulas, e ficava ansiando pela magia da grande noite da festa, para cujo sucesso o seu César Felício e o meu padrinho Said, pai e irmão da nossa diretora, dona Olívia, se empenhavam bastante. Armavam barraquinhas, estendiam bandeirolas coloridas, acendiam a fogueira a arder durante todo o decorrer dos folguedos. As professoras ajudavam nas barraquinhas e na preparação dos dançarinos. Lembro-me de Talita, Maria Amélia, Vera, Teresa, Dalta, Maria Clara, moças ainda a quem todos os alunos chamavam de “dona”.
E, enquanto seu Alcino não nos convocava para a exibição de gala da noite, nos púnhamos a correr pelos espaços abertos, soltando traques, fugindo de busca-pés, escapando de estrepa-moleques, detonando cabeças-de-nego. Ou, às vezes, mais sossegados, assando batata doce na fogueira, comendo milho assado, lambuzando-nos de molho de cachorro-quente, tomando refresco de groselha ou até mesmo umas doses de quentão, para aliviar o frio trazido pela noite.
Então chegava o momento da dança! Os meninos, com trajes à moda de caipiras – Não nos sentíamos os mocorongos que podíamos ser. – e as meninas, em seus belos vestidos rodados, quadriculados, e maquiadas como moças da roça em dia de festa, ainda mais belas que nos dias comuns de aula, corríamos para o espaço reservado à dança.
Seu Alcino se postava em frente às duas fileiras que se formavam, trilava o apito, para que todos estivessem atentos; tio Tatão puxava o fole; o Louro começava a marcar o ritmo com o pandeiro; e nós íamos sob as ordens do grande mestre de quadrilha desenhando no chão a coreografia ensaiada:
- Balancê em seus lugares!
- Tour com seu par!
- Anavan! Anarriê! Balancê!
- Changê de dame!
- Tour com o par do bisavio!
- Aos seus lugares!
- Preparando para o passeio na roça! Anavan! Olha cobra! É mentira! Evem chuva! É mentira! Cestinho de flor! Tour! Balancê!
E lá ia a quadrilha percorrendo o espaço, marcando o ritmo com a batida dos pés no chão de cimento, cada menino de braço com seu par, as famílias ao lado vendo seus filhos numa felicidade contagiante, e eu quase chegando às nuvens.

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Militão dos Santos, Festa junina (em elrincondeyanka.blogspot.com).
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PS: A quadrilha é uma dança tradicional, trazida ao Brasil pelos portugueses e derivada de uma dança do século XVIII de origem francesa, denominada quadrille. Muitos dos seus comandos permaneceram em francês, o que gerou formas populares adaptadas ao português do Brasil. Assim anavan vem de en avant (em frente!); anarriê, de en arrière; (para trás); tour (pronunciada tur), aqui mantive a grafia francesa, (rodopio); bisavio, da locução vis à vis (cara a cara); changê de dame, de changez de dame (troque de dama!).

8 de agosto de 2017

OTIMISMO DESENFREADO

Qualquer -ismo tem boa probabilidade de se tornar desenfreado, com o passar do tempo e a predisposição do cidadão que o adota. Seja ele de caráter ideológico, alcoólico ou cismático.

Nos campos da ideologia e da manguaça, não há necessidade de comprovação, porque todos estão carecas de ver exemplos por aí. Vou-me ater, então, ao campo da cisma, da pretensão, esta coisa tão humana.

O otimismo é um deles. E se submete às mesmas regras de exagero que qualquer outro, como o pessimismo, o egocentrismo, o machismo e, por que não dizer, o parnasianismo, ainda nem de todo debelado do moderno convívio poético.

Mas tenho notado que estão exagerando um pouco. Aliás, o sero mano (para relembrar a grafia de um candidato do vestibular) é dado à hybris, aquele elemento da tragédia grega que fatalmente leva o herói a erro de avaliação, por desmedida. Estamos chutando o pau da barraca na hybris, apesar de que, desde que o mundo é mundo e o Brasil foi constituído como nação abaixo da linha do Equador, com pequena exceção inexpressiva do ponto de vista geográfico ao norte, colocamos o otimismo na ponta da chuteira e invadimos a área adversária.

Neste ponto, a sabedoria popular já nos tem dado mostras. Senão, é só relembrar aqui alguns exemplos, como o dito popular “Ruim com ele, pior sem ele”. Ora, quem já está avaliado deste modo não pode oferecer nada de bom. Mas nossa concepção chama a atenção de que poderia ser pior. Nesta linha de raciocínio, pior que o pior só o péssimo. Há também “De hora, em hora, Deus melhora”, como se as coisas não estivessem piorando a olhos vistos.

Na língua, há outros exemplos de otimismo, que a gramática resolveu chamar de eufemismo. O exemplo clássico que ouvia dos professores era o da palavra “melhorzinho/a” aplicada à situação de uma pessoa gravemente enferma. Ao perguntar por ela, a resposta que se ouvia com frequência era “Está melhorzinha!”. Quando menino, sempre tinha a ideia de que o doente estava mais para morrer do que para sobreviver, porque daí a pouco ele abotoava o paletó.

Assim também, em relação a “morrer”, a língua registra uma série de torneios verbais para atenuar o sentido básico da palavra, numa espécie de visão otimista do fato: partir desta para melhor, entregar a alma a Deus, virar estrela.

Contudo, por agora, tenho ouvido algumas novas formulações neste sentido, que me têm chamado a atenção.

Um pouco depois desta última eleição municipal, um conhecido meu que concorreu à reeleição para vereador, indagado sobre seu desempenho nas urnas, disse simplesmente que tinha sido “eleito suplente”. Ora, meu caro leitor, ele entrega a alma a Deus, mas não admite que perdeu. É, mais ou menos, como o torcedor do time rebaixado dizer que seu time foi “classificado para a Série B do campeonato”.

Na linguagem da Economia, já fomos surpreendidos com a expressão “crescimento negativo” para significar que o desempenho do país deu retrocesso econômico. Ora, não há, em sã consciência, crescimento negativo: ou se cresce, ou não se cresce; ou se diminui, se decresce. Isto é pior do que os pleonasmos que minha professora primária fazia questão de nos corrigir: sair pra fora, entrar pra dentro, subir pra cima, descer pra baixo; que tanto gostávamos de falar lá na nossa Carabuçu dos anos 50, como se o sentido das ações expressas pelos verbos não fosse cabalmente inequívoco e necessitasse do reforço da expressão adverbial. Ou mesmo esta outra, na mesma linha: crescimento zero. Crescimento zero é o escambau!

Certa vez, levei as ações do antigo BANERJ – o Banco do Estado do Rio de Janeiro – que meu sogro adquirira à sede da empresa no edifício da avenida Nilo Peçanha. Lá, depois de algum tempo examinando aqueles papéis amarelados do tempo, o cidadão engravatado me disse: “O valor de face dessas ações no mercado hoje é nulo”. E o meu sogro perdeu seu rico dinheirinho para o governo do estado. Também a frase dele foi de caráter otimista. Segundo me pareceu, eu deveria ver pelo lado positivo aquele valor de face no mercado. É ter muita cara de pau, não é não?

E assim, de otimismo em otimismo, vamos construindo uma falsa visão de que as piores coisas não são tão ruins assim. Aliás, conforme sejam vistas, podem ser ótimas! Eu posso até ter sido eleito suplente de vereador. E, um dia, após a morte de todos os outros que estão à minha frente, eu assuma a cadeira a que faço jus no legislativo municipal!

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Carlitos (em academiaparaninfo.wordpress.com).