18 de setembro de 2016

TÁTICA DE JOGO


Houve quem duvidasse, mas a ordem era para ser cumprida. O lateral-direito avançaria, o ponta-direita (falso, diga-se de passagem) faria a ultrapassagem para receber a bola nas costas do adversário, pegaria a bola, correria com ela dominada até a linha-de-fundo, cruzaria sobre a área e esperaria o resultado do lance, fechando em direção à grande área. Enquanto isso, o centroavante mais o homem de meio-campo fechariam pelo miolo da área, enquanto o ponta-esquerda e o lateral-esquerdo, em movimento de porta pantográfica, entrariam pela esquerda. O meio-campo acompanharia nessa avalanche o ataque sobre a área adversária.
Oquei, professor! Tudo certo, professor! Deixa com a gente!
Uma outra ordem: a mesma, só que pela esquerda. Aí os papéis se invertem. Quando o inimigo atacar, o combate será dado da linha intermediária para trás. Nas laterais, ou passa a bola ou o adversário. Os dois juntos, nunca! De preferência, nenhum dos dois!
Oquei, professor! Tudo certo, professor! Deixa com a gente!
O time entrou em campo, jogou conforme o combinado, levou uma surra danada. A torcida pediu a cabeça do técnico, os comentários criticaram o esquema tático, nas rodas de conversa só se falava nos melhores lances do inimigo e nos piores do time.
Mas o que doeu mesmo foi o frangaço que o goleiro papou, mal iniciada a contenda. Logo o goleiro, para quem não houve nenhum esquema especial, nenhuma recomendação tática. E precisava, desgraçado? Era só não deixar a excomungada entrar, seu miserável! Frangueiro de uma figa! Por isso é que não nasce grama onde você pisa, seu infeliz!

Helena dos Santos Coelho, Futebol na faverla, Talentos da Terceira idade, 2009.


9 de setembro de 2016

DIZER AO AMIGO

(Aos amigos de todos os sexos.)

Amigo
Vou dar-te um abraço forte
Estreitar-te o peito
Dizer-te o quanto estimo a amizade
Que já vem de longe
De um tempo bem antigo.
Vou dizer que te amo
Assim como se diz a um amigo
A quem as palavras não se escondem
Mas antes explodem em seus sentidos.
Amigo
O resto são canções de olvido
Perdidas/achadas no tempo
Que guardam as lembranças
De todas as trapaças
Que a vida fez contigo
E as tantas outras que armou comigo.

Amigos a brincar na praia (foto do autor).

2 de setembro de 2016

ASSIM, TIPO BELARMINO

(Para a amiga Cléia Miranda, que me contou a anedota há alguns anos.)

Belarmino Fontinha chegou a Espera Feliz cheio de planos. Ninguém na cidade o tinha visto mais gordo. Ele era, assim, completamente desconhecido de todos. Melhor para ele, pensou de si para consigo.
Belarmino tinha planos mirabolantes para enricar, fazer seu pé de meia e partir para uma posterior aposentadoria de colarinho folgado e pantufas de algodão, em algum lugar de serra de temperatura amena e ar saudável, livre de muriçoca, pernilongo e borrachudo. Já tinha sofrido contravapores demais da vida.
Ele estivera antes, por um par de anos, em Guiricema, cidadezinha também mineira quase pacata, não fossem alguns valentões apreciarem resolver questiúnculas de somenos importância na base do sopapo, do porrete, da faca e da garrucha.
Chegou à cidade com seus poucos teréns no ônibus proveniente de Manhuaçu, depois de um périplo cujo itinerário levantava suspeitas de algum malfeito anterior, e foi se instalar com sua farta pessoa, a não caber em manequim apertado, num dos quartos do simpático Hotel dos Viajantes.
No café da manhã, recheado de broa de fubá, favas de jaca manteiga e queijo curado, assuntou com o proprietário da hospedaria, de nome Horácio Peixoto, sobre a pujança do comércio local, já que vinha tencionado em abrir estabelecimento na praça. O homem deu as indicações mais precisas possíveis, enumerou as barbearias, as farmácias, as vendas de secos-e-molhados, os botequins, o único restaurante, que, por sinal, ficava nas dependências do hotel, e mais uma ou outra quitanda bem sortida de frutas, legumes e verduras da terra. Por esse tempo, restinho de primeira metade do século passado, Espera Feliz ainda era uma cidade um tanto acanhada em dimensões, mas próspera e trabalhadora, como afiançou o estalajadeiro.
Belarmino, como de sempre, arrotou importâncias, teres e haveres de que disporia, seu pretenso tino para negócios de vulto, e garantiu que sua presença ali iria alavancar o progresso da cidade, agora despertada para um tal turismo de subir morro e andar no meio do mato, incipiente ainda, mas muito promissor, porque os livros escolares apontavam o Pico da Bandeira, não muito distante, na Serra do Caparaó, como o ponto culminante do nosso torrão natal. O povo está começando a dar valor a essas coisas, amigo Peixoto! - foi o que asseverou ao dono do hotel, já montado numa amizade franca.
Estômago forrado, foi procurar lugar em que abriria seu negócio de vulto. Encontrou não muito longe, numa rua próxima à praça da cidade, local apropriado: não muito grande, não muito caro em aluguel e já com alguma mobília de serventia, sobretudo o balcão à entrada, que deixava a parte interna protegida, para cujo acesso bastava levantar o tampo que se apoiava sobre um sarrafo na parede esquerda de quem entra.
Sem muito alarde de alto-falante, mas com panfletos que fez distribuir por um moleque, a quem retribuía com algum trocado, anunciou a abertura de poderosa agência de apostas do afamado jogo do bicho, por essa ocasião ainda bastante tolerado nas cidades menores do interior do país.
No papelucho, afiançava pagar os prêmios em dinheiro vivo, sem delongas, como era do seu feitio de trabalhar com gente honrada como o povo da terra. O sorteio válido para as apostas era o da capital, cujo resultado se divulgava nas ondas de uma rádio poderosa de lá. A exceção de praxe era para os dias em que corresse o prêmio da Federal. Aí valia a Federal.
O sucesso foi quase imediato. Acorreram à sua mal instalada loja os magotes de esperançosos de sempre que se espalham como capim-tiririca por esses brasis afora, sempre aguardando a providência divina a lhes aliviar os sofrimentos. E todos eles, graças a São Cipriano, para quem Fontinha baixava sempre suas preocupações, de muito maus palpites.
Até que na quinta-feira seguinte – segunda semana em que se instalara na praça –, um circunstante de nome Godofredo Trabuco, dos Trabuco de Chiavari, na Ligúria italiana, e com péssimas avaliações no quesito harmonia acertou na cabeça, sem cercadura, o milhar da vaca.
Após conferir o resultado, o apostador correu ao estabelecimento e esfregou nas fuças de Belarmino a pule premiada. Quando o banqueiro viu o estrago do prêmio, arrazoou com o ganhador que tal dinheiro, no volume que era, não estava disponível com ele naquele momento, que ele não era maluco de guardar tamanha riqueza em colchão de crina de cavalo. Assegurou para ele, no entanto, que, logo após o almoço do dia seguinte, sexta-feira, poderia voltar ao estabelecimento, de posse da pule milionária, que ele lhe faria o pagamento com o montante a ser retirado do banco em Carangola.
Nem bem bateu meio-dia de sexta-feira e mal palitados os dentes do almoço, Godofredo Trabuco rumou em direção à loja de Belarmino Fontinha com seu passaporte para a riqueza no bolso da camisa. Em lá chegando, deu de cara com o estabelecimento fechado, ostentando na porta única de entrada cartaz escrito em vacilante letra de forma:
                                             POVO DE ESPERA FELIZ,
                                              SERRA DO CAPARAÓ,
                                             QUEM QUISER DINHEIRO FÁCIL
                                             VAI PEGAR NO CU DA VÓ.
E nunca ninguém jamais, em tempo algum, ouviu falar de um tal Belarmino Fontinha, ou Setembrino Conceição, ou Ariobaldo Cisneiros, ou Secundino Bragança, que eram os nomes que o malandro usava para aplicar golpes nas cidadezinhas descuidadas do interior das Minas Gerais, das quais tinha de fugir às pressas, para não levar uns portentosos catiripapos no meio dos cornos.

Imagem em pt.depositphotos.com.

28 de agosto de 2016

MEU AVÔ


Está vendo aquele senhorzinho magro que ali vai, chapéu de feltro na cor pino, já de certo uso, a cobrir seus cabelos brancos? É o meu avô, a quem todos da família - filhos e netos - chamamos Papai Juquinha.
Ele está acordado desde as cinco da manhã e tomou seu banho frio como sempre. Nunca reclamou da temperatura da água. Nem no inverno; muito menos, no verão!
Preste atenção agora aos seus passos lentos, o tronco um pouco arqueado sobre a linha da cintura, as mãos cruzadas atrás, sobre o quadril. Vai em direção à máquina de café, que gerencia para o turco Quirino, libanês que mora em Bom Jesus.
Repare na sua roupa simples: calça cáqui, camisa de algodão de manga curta, com as fraldas sempre para dentro; cinto de couro surrado e botinas velhas. Simples, mas asseada.
Veja seus olhos vivos, as bochechas cavas, na face enrugada pelos anos duros, seu bigode sobre o lábio fino. Parece que tenta assoviar alguma melodia desconhecida, mas não consegue. Já quase não tem dentes. Talvez isso explique o zumbido em vez do assobio.
Observe agora, quando volta para casa, à hora do almoço. Entra quieto, diz alguma coisa para minha avó, tira o chapéu, que pendura num cabide à parede, e vai lavar as mãos.
Come a comida saborosa que a mulher prepara: arroz fresquinho, feijão encorpado, ovo estrelado, couve picadinha, jiló frito, angu de corte e um naco de carne de porco guardada na gordura. Nunca teve inapetência na vida e pela vida. 
Agora está sentado à mesa, lendo A Voz do Povo. Passa os olhos ligeiros sobre o que interessa. Depois pega o lápis e dá de fazer contas nas margens do jornal. Todos os seus jornais terminam cheios de contas pelas margens. São os cálculos das arrobas de café e arroz piladas na máquina sob sua responsabilidade.
Lá vai ele de volta ao trabalho após o almoço. Fala com um e com outro que encontra no trajeto. Na vila, todos o conhecem e ele conhece a todos. Pode não saber o nome, mas lê suas fisionomias. Aquele é filho do Deolindo. O outro é o genro do Aristide Turco. Aquele molequinho ali, de calção caindo da cintura, as costelinhas desenhadas no peito, é neto do Precisval. Fala com um e com outro, indiferentemente: Oi! Boa tarde! Como vai?
No fim da tarde, após o banho para tirar o pó da pilação e antes da janta, vai encontrar os amigos para a conversa de sempre. E, mesmo sem dentes, nunca deixou de gargalhar. Sim, ele gargalha com facilidade. A vida difícil não lhe tirou nenhum traço de alegria. E é fácil vê-lo na esquina da venda do João Mestre, na roda de amigos, a rir das histórias deles e a contar as suas.
Se volta para casa tentando assobiar, minha avó, à varanda, desconfia de que ele esteja com alguma ideia saliente na cabeça. Andou falando em mulher aquele velho safado. É o que ela sempre diz dele.
Ali ao lado dela, observo meu avô chegando e, por dentro, rio desse ciúme tardio que ela nutre, passados não sei quantos anos em que vivem juntos, depois de dez filhos, uma montoeira de netos.
A casa na pracinha da vila recebe meu avô de volta. Minha avó vai para a cozinha quentar a janta, enquanto tenta saber dele o motivo de tanta alegria.
Ele ri, mas se aborrece com a impertinência dela. 
Eu fico quieto no meu canto.
Para mim, meu avô não tem defeitos!


Van Gogh, Le vieil homme triste, 1890, Museu Kröller-Müller.

24 de agosto de 2016

QUANTA ESTAÇÃO


Hiberno na primavera
Primavero no outono
Outono então no verão
Veraneio no inverno
E assim como não quero
Nem pretendo ser eterno
Me perco em cada estação.

Giuseppe Arcimboldo (séc. XVI), As quatro estações (em restauras.altervista.org).

18 de agosto de 2016

MEDALHA PINÓQUIO


Estava correndo os olhos sobre o caderno especial das Olimpíadas de um jornal carioca e me deparei com a foto da namorada do nadador norte-americano, ganhador de medalha, que registrou boletim de ocorrência por um suposto assalto que ele e mais três companheiros teriam sofrido, numa manhã olímpica dessas aí.
E senti pena do cara. Ele ganhou a medalha e perdeu a namorada, que não engoliu a desculpa esfarrapada, mal e porcamente alicerçada na famosa insegurança carioca, que o mancebo criou, a fim de justificar a volta tardia para a concentração. Aliás as imagens das câmaras de segurança do momento da reentrada do Quarteto Pinóquio na Vila Olímpica, veiculadas por jornal britânico, são peça a desmontar a versão dada.
Segundo me parece pelo que o zunzunzum murmureja, os quatros foram para a esbórnia, perderam a hora – o abestado deixou sua belíssima namorada esquentando travesseiros no hotel – e não lhe sobrou alternativa a não ser, para aliviar a barra, colocar mais uma caca no já combalido prestígio da nossa segurança pública. Para maquinar sua história, ele usou o princípio do “que é um peido, quando já se está cagado?”.
A ele o que importaria um assalto a mais, mesmo que a notícia tivesse eco internacional, sobretudo se não é seu país, se não se trata de sua cidade? Às favas qualquer prurido ético com os esculhambados brasileiros, mas não posso perder a coelhinha da Playboy!
E se lascou o mané! A notícia que li é que a bonitinha já deu linha na pipa e não quer mais saber do nadador-armador, que, inclusive, se escafedeu para o recesso do lar nos Esteites, antes mesmo que voltasse à delegacia para prestar mais esclarecimentos. O que aliás ocorreu com dois outros comparsas, me desculpem, companheiros de esbórnia, retirados do voo da volta, para abrir o bico diante da autoridade policial. Aos conformes, cambada!
É claro que este incidente não gerará nenhuma guerra como a que está gerando a defesa incondicional do Biscoito Globo. Não invadiremos a redação do jornal nova-iorquino, nem sua página na Grande Rede. Mas também há de repercutir quando a verdadeira versão dos fatos emergir do fundo dessa piscina turva.


PS: Este texto foi atropelado pelo contexto. Mais tarde soube pelo noticiário das rádios que a versão não foi a apresentada pelos rapazes. E ficou tudo muito pior ainda. (Agora são 21h59, momento em que acrescento este post-scriptum.)

11 de agosto de 2016

ANTÕI NHOQUINHA


Quando você engrena um namoro que parece ter ares de coisa mais séria, dá uma vontade danada de apresentar a namorada a todos os parentes, desde os pais e irmãos, até os tios e primos, mesmo de uma família grande e espalhada no mundo. Principalmente se tal mundo é a terra natal, escondida lá no interior do estado.
Isto é tão comum, que Eduardo resolveu levar Estefânia até Paraíso do Tobias, em Miracema, para apresentá-la à parentagem de segundo e terceiro graus.
Era um sábado à tarde, na beiradinha da noite, quando chegou com a namorada à casa da Tia Cacheada. O nome da tia fora dado a ela, ainda em criança, bem se vê, pelo tipo de cabelo. Ainda que agora, ali, naquele instante, seus cabelos já não fossem tão cacheados quanto na infância, o apelido resistira ao tempo.
Tia Cacheada, ao ser apresentada à Estefânia, soltou do fundo do peito, uma frase aliviada, mas guardada por alguns anos de preocupação:
- Graças a Deus, meu filho, que você não vai acabar como seu tio Antõi Nhoquinha!
Antõi Nhoquinha – Que Deus o tivesse sob sua guarda e proteção nos escaninhos do paraíso! – havia sido um tio-avô que não serviria, certamente, de modelo para os sobrinhos. Viveu e morreu solteirão, em companhia de outros dois irmãos, encalhados como ele – Benício e Gibinha –, numa casa na roça, nos arredores de Paraíso do Tobias, vilazinha simpática, de cerca de duas mil almas dedicadas ao trabalho, perdida no noroeste do Rio de Janeiro.
Dentre as coisas que cultivava e os bichos que criava, possuía também de si uma esquisitice no viver, coisa não vislumbrada em derredor de muitas léguas. Conseguia falar melhor com os bichos do que com gente. E tinha uma grande estima por seu cachimbo de barro, em que queimava fumo de rolo picado de canivete e esfarinhado na concha da mão, sentado sobre um toco no meio do terreiro.
A casa em que moravam os irmãos era um primor de desordem, típica de moradia de homens sozinhos, cheios de manias – o tempo desenvolve manias nas pessoas, sobretudo se não são casadas, amasiadas ou orelhadas com outra qualquer.
Na cozinha, por exemplo, mobiliada por um grande fogão à lenha, um armário de madeira antigo de ranger as dobradiças e uma mesa retangular, também de madeira, servida por dois bancos compridos, não era incomum que, do armário, assim que se abrisse uma das portas, pulasse de dentro uma galinha espantada, a cacarejar, anunciando o ovo que acabara de botar.
Da cumeeira, sobre o borralho, pediam teias de aranha e picumãs enegrecidos pela fumaça da lenha cujo fogo servia a alimentar as trempes. O picumã tinha valia no estancamento de sangue que vertesse de algum corte acidental, coisa não rara na lida da roça.
Os quartos – cada um tinha o seu – pareciam acampamentos provisórios, com roupas penduradas em uma espécie de cabide comprido feito de cipó gurumbumba e pendente do teto por fios de arame. Sob cada cama, também de madeira maciça já escurecida pelo tempo e sempre em desalinho, imperava um penico de ágate branco cheio de descasques, precioso nas necessidades noturnas, vez que o quartinho, nome que se dava ao banheiro, ficava fora do corpo da casa, no fundo do terreiro.
O tal quartinho era uma construção tosca de tábuas de madeira velha, cheias de gretas, em que também se tomava banho, ou coisa que o valha. Porque era sabido que, nas poucas oportunidades que os três irmãos tinham para cuidar da higiene corporal, era comum vê-los atravessar o terreiro, em direção ao quartinho, carregando o enxugador pendurado nas costas, o sabão preto feito de cinzas do fogão e um canecão d’água, que as más línguas teimavam em dizer ser apenas e tão-somente uma xícara, com a qual tomavam o famoso banho ocasional.
A única peça mobiliária dos quartos, além das camas, eram pequenas cômodas, em que se guardavam as roupas miúdas e onde um escondia do outro, em meio às cuecas tipo samba-canção, a linguiça defumada que compravam numa vendinha na vila, quando lá iam aos sábados à noite.
No tempo em que Eduardo começara o namoro, ele morava com o primo Marcinho e a cadela Jane, assim nomeada e chamada com a pronúncia inglesa, pela semelhança do olhar, segundo eles, com a grande atriz norte-americana Jane Fonda. A casa – está lá até hoje - fica pelos lados do Engenho do Mato, região rural da cidade de Niterói. E só isso bastava para que Tia Cacheada nutrisse sérias preocupações de que aqueles sobrinhos acabassem suas vidas como Antõi Nhoquinha, Benício e Gibinha. E veja, leitor: Tia Cacheada não sabia que os dois escondiam pacotes de Miojo entre suas cuecas nos armários.
Para a tia, Antõi Nhoquinha, o mais velho dos três irmãos, era modelo a não ser imitado. E, apenas pelo fato deste antecedente familiar, Tia Cacheada sofria pesadelos constantes de preocupação de que “os meninos”, como dizia, tivessem tal destino na vida.
Por isso é que, quando Eduardo lhe apresentou a namorada, ela liberou a frase carregada de toda essa preocupação. E, para demonstrar aprovação ao namoro e cativar a moça para a família, abriu garrafas de seus famosos licores de frutas regionais – jenipapo e jabuticaba, dentre os mais apreciados –, em comemoração a tão alvissareira notícia.
Antõi Nhoquinha, Gibinha e Benício não mais deixariam herdeiros de suas esquisitices na família! Deus fosse louvado!



Almeida Jr., Caipira picando fumo, 1893 (enciclopedia.itaucultural.org.br).