1 de dezembro de 2016

A ENCOMENDA FICA PARA DEPOIS


          Sebastião Seleiro estendeu o braço avantajado e recolheu o pito na beira do cocho. Tirou uma baforada profunda e gostosa e mirou, no ar, a nuvenzinha de fumaça formando morrotes acinzentados. O céu azulinho, azulinho, limpo de doer nas vistas, repetia-se enfastiadamente no depois do almoço já há bem uns sessenta dias, prenunciando um verão danado de calorento. Para ele, o vaivém de sol e chuva era vital, não que vivesse diretamente da roça, dessa ou daquela cultura, senão do próprio encharcar a terra, verdejar o pasto, florescer a plantação, frutificar o pé de fruta, comerem os homens o alimento do chão puro e daí tirarem seu sustento. Isso, o que o deixava feliz. No mais, era ele mesmo tocar a vida na sovela, nas agulhas, nas linhas e no couro; fazer um dinheirinho rendido miúdo para o fumo, a roupa do corpo e uma ou outra besteirinha que lhe pudessem passar pelo juízo. Enfim, coisa pouca para os seus sessenta e tantos anos, naquele arremedo de felicidade em que desconhecia os melhores do conforto de um tal de progresso. Ali onde estava, no sombrão generoso da tulha, sentia no bafo da viração o mesmo gosto de estar como uma peça a mais no desempenho de sua função nesta vivência. Sabia perfeitamente que não faria falta grande, caso morresse, mas ficava feliz quando, num dos acessos de tosse gosmenta que o atormentava vez e outra, ouvia sempre Aurélio, o patrão, brincar:
        - Cuidado, hem, seu Sebastião, cuidado com essa catarreira toda, que ainda lhe entope os peitos e eu fico sem as cangalhas novas para a tropa!
        E ria o velho, grasnando feito um marreco esganiçado. A cusparada amarelo-cinzenta sempre complementava essa descontração com a doença, nem de todo atinada, e, de mais a mais, incapaz de vergar aquele negro grandalhão.
        Nessas ocasiões, vinha-lhe a lembrança de tempos morridos e enterrados em que podia abusar de uma pinga mais braba, de uma afronta séria em baile a candeeiro, ou mesmo de uma virada de noite na cata de satisfazer os desejos da carne. Mulher, naqueles ermos, padecia de falta. Acaso Nora não tivesse nas boas com o Rufino, dava para sentir a fungação dela debaixo da sua pessoa, numa sensação de gente e cama que lhe ficava no ouvido durante mês e tal, esquentando o corpo no gozo desses barulhos. Casar com ela é que não quis, dado que a mulher não segurava os guardados, quando via um corte de tecido, um vidro de extrato, um sapato novo. Preferia era levar a situação nos moldes em que estava. Além do mais, esse negócio de casamento não era de seu namoro, de sua preferência. Agora, porém, estava ele ali, sem casa, sem mulher e sem ter feito filho que lhe pudesse ajudar. Dormia no que dormia: um estrado de madeira coberto por colchão de capim, na tulha de arreios e cangalhas. O cheiro ativo do couro que o nariz não mais sentia como no início, cambaleões nas paredes, ratos a passarem de noite e algumas aranhas, bichos que não o incomodavam muito; antes, faziam-lhe companhia. Mas também sabia dar um fim, em pouco tempo, a um montão deles. A tulha da sombra era essa que o guardava, nas horas de folga, no sono e nos pensamentos de coisas que não acontecem mais.
        No costurar dessas cogitações, se levantou molengo do tamborete e foi buscar no interior do espaçoso salão dos couros a continuação do serviço encomendado há algum tempo. Passou a mão nas ferramentas, no couro e na armação da cangalha, a quarta a ser possivelmente aprontada naquela semana: serviço de requerer perícia e arte, marca registrada do seu ofício. E voltou para fora, onde tinha uns apetrechos auxiliares, a tempo de cumprimentar, com um oba garganteado e um aceno de mão, Zé Durval, que passava sestroso na besta baia de sua predileção. Ainda imaginou o velho o trabalho que tivera, anos passados, na feitura de semelhante tarefa para o fazendeiro da Forquilha. Este, agora, enricado com o café, mas a mesma consideração de sempre.
        Naquele tempo, as dificuldades se avolumavam nas fazendas como madeira cortada em beira de estrada. O plantio do café requeria derrubada de mata e uma trabalheira danada no estabelecimento da terra de cultivo e no cuidado da cultura de sustentação, normalmente milho. É que o cafezal, por essa época, só começava a produzir economicamente a partir do sétimo ano de plantado, e o milho tinha a incumbência de manter estável a situação das fazendas. Tanto é que a tropa de burros da Forquilha foi tendo os arreios trocados espaçadamente, à medida que o dinheiro entrava e sobrava para a compra do material necessário. No intervalo do seu serviço, Sebastião ajudava na quebra do milho, o que lhe garantia casa, comida e um salário espremido, como sempre. Foi aí que conheceu Nora.
        Negra bonita, durinha nas carnes, olhos de jamelão, Nora não pôde fugir à lábia de Rufino, vendeiro montado em terras da Forquilha e fornecedor de suprimentos os mais diversos para as necessidades daqueles arredores. Nora, explodindo sensualidade pelos poros, coisa rara em ocasião de mulheres cheias de pano, entrou pela primeira vez na venda para comprar pimenta-do-reino, e dali só saiu quando a primeira briga separou os dois. No quarto dos fundos, ela se estabeleceu como dona da casa, fazendo o amásio construir cozinha e sala, além de uma privada na beira do valão da laje, que roçava a casa. Nessa vida, de farinha de mandioca, carne seca, feijão e arroz, entremeada de verduras e legumes à vontade, Nora não viu motivos para voltar ao rancho de sapé, um quarto de légua estrada acima, onde vivia com sua família, num aperto de espaço e de barriga. E foi seguindo os desejos e taras do Rufino que ela começou a se aprimorar, a se empinar, a se alisar, o que despertou nos demais homens a vontade de deitar com ela. E as desculpas para ver a negra bonita repetiam-se, na venda, com uma frequência impertinente, nos dias de sábado, quando muitos se juntavam para as compras, o papo, a cachaçada, o joguinho de cisplandim, que lá todos diziam cisprandi.
        - Ô Rufino, pede lá a Dona Nora mais uns bolinhos de manjoca. – O tratamento respeitoso a esconder pensamentos arrevesados.
        E lá vinha, apertada nas roupas, lenço na cabeça, luzindo a banha de porco, trazendo um prato de bolinhos de mandioca, uma das suas várias especialidades na cozinha.
        - Boa noite, Dona Nora! Como tem passado? – perguntavam alguns, comendo-a com os olhos, a boca cheia de bolinho.
        Umas talagadas de cachaça já faziam a festa, quando Sebastião percebeu, todo satisfeito, um rabo de olho procurando por ele no meio daquele pessoal todo.
        - Me adescurpe, Dona Nora, mas a senhora tem lá umas tripinha de porco frita? – Sebastião procurou um meio de fazer a mulher do Rufino retornar à venda. – Bota mais dois dedo aí da branquinha!
        Se a história não envolvesse dinheiro, Rufino realmente não percebia. E foi o que aconteceu naquele momento: Nora piscou maldosamente para Sebastião, agora um potro fogoso a não caber no espaço entre a porta da frente da venda e o balcão. Lambeu aquele meio copo de cachaça, cuspiu uma goma arredondada que nem baleba e disse, disfarçado:
        - Vô mijá, cambada!
        No que falou, tomou o rumo do valão, passando no beco entre a casa da venda e a grande tulha de madeira. O terreno descaía quase uns dois metros até chegar à água barulhenta que corria sobre uma grande laje de pedra, espremendo-se ora aqui, ora ali. Se o acesso à tulha, pela frente, não demandava mais de dois degraus de madeira maciça, nos fundos as vigas de sustentação quase se emparelhavam a Sebastião em altura, antes de entrarem na terra úmida. Sebastião, palmeando a parede da venda para se aprumar, a cachaça já a lhe entortar as coisas, passou defronte da janela da cozinha e viu Nora entretida no preparo da tripa de porco.
        - Capricha no tempero! – Exclamação inesperada que fez a mulher voltar-se nas ancas... E que ancas! Susto de nada, coisiquinha à toa, e abriu-se ela num sorriso branquinho de dar gosto.
        - Se ocê quisé, faço um molho caprichado. Qué?
        Baba, Sebastião, baba! Tens aí nas fuças uma das negras mais bem aparelhadas de carne de toda essa zona. Baba, desgraçado!
        A fim de provocar ainda mais, Nora abaixou-se para pegar alguma coisa no armário, fazendo projetar em direção dos olhos pidões do admirador seus avantajados.
        - Ô, essa menina, será qu’ocê num esqueceu de lavá essas tripa direitim? Vamo lá no valão, vamo!
        Se há alguém que provoca e assume a provocação, esse alguém é Nora. Nem precisou Sebastião ser mais claro, mais objetivo, para ela largar a bacia de tripas em cima da mesa e sair da casa, limpando a mão no avental de saco de farinha de trigo que lhe contornava os quadris. E foi só ganhar o beco para receber na cintura o bração musculoso e rijo do seleiro que, ato contínuo, cheirando-lhe o cangote, deu um suspiro fundo de macho. O que se passou entre os dois embaixo do assoalho da tulha é dispensado narrar. Bastasse ver o ar vitorioso da mulher, olhos amormaçados, remelexo assossegado. Sebastião, ele o negro seleiro, evaporou o álcool acumulado naquele princípio de noite e voltou apostando alto no cisprandi.
        Chapéu descaído em riba dos olhos, entrou na venda sem coragem de olhar para Rufino. Meio de banda, assim como quem não quer nada, pediu mais aguardente, sem exagerar no tom da voz, agora amaciada:
        - Outra dósia, Rufino. E vê lá se as tripa já envém.
        De sua boca não sairia nunca a menor menção do corrido, não fosse, dias depois, Nora ter dado com a língua nos dentes, com uma companheira de lavagem de roupa na beira do corgo, onde elogiou as vantagens do seleiro no isso e no aquilo. Vai daí que essa tal companheira não se preocupou em fazer segredo para o marido, amigo de Sebastião.
        - Tô sabeno, home, to sabeno das suas estripulia.
        - Ques estripulia, sô?
        - Cacilda me contô que istrudia ocê passô a Nora na cara.
        - Sê besta! Nem fala num trem desses, sô!
        - Vai querê negá? Inda ela disse que a Nora inté gavô munto ocê, que fez, que aconteceu, lá na tulha da fazenda.
        - Boca de siri, rapaz! Faz de conta qu’ocê num sabe de nada!
        - Ah, é! E cum’é que ela é? Das boa?
        - Ques coxa, sô! Ques carne! Quem tá bem servido é o desgraçado do Rufino!
        - Agora, ocê tomém, uai!
        A história a partir daí deu pano para as mangas. Os encontros se amiudaram até que o vendeiro, num aperto dos intestinos, pegou os dois dentro da privada de madeira em plena prática de besteira: o traidor com uma perna pendurada pelo buraco por onde se faziam as necessidades. Tempo teve Sebastião de sumir, o que não aconteceu com Nora. Essa, coitada, levou uma surra de fumo de rolo de ficar de molho em água de sal e vinagre, as costas que eram vergões só.
        Sebastião, ao saber dos maus tratos sofridos pela amante, se arvorou em valente e quis ir tirar satisfações com Rufino, coisa, aliás, que não passou da soleira da porta do quarto, barrado que foi por Marcelino, ouvinte de seus particulares. Aí é que ele ficou mais brabo ainda.
        - Eu ainda vô às forra! Eu quebro a cara daquele cachorro! – era o que sabia dizer ao amigo, que retrucava:
        - Larga disso, dexa de bestera, Tião!
        Amainado aquele espírito de fera, a vida voltou ao normal para o seleiro. Porém nem de longe lhe passou pela cabeça procurar Nora, trancada a sete chaves, na casa dos fundos da venda, de não arredar o pé, nem para ir lá fora, sem que Rufino ficasse de olho em seus passos. Se havia situação que prometia durar para sempre, era essa. Soube, entretanto, a mulher, nos tremeluzes do quarto e nos aconchegos das cobertas, reconquistar aos poucos sua liberdade. Até que uma noite, mais desajuizada ainda, foi parar num baile em casa de Antônio Fuleiro, com desculpa de ir ver a mãe.
        Quando Nora chegou, o espanto de Sebastião, que lá se encontrava para uma dança, fez seus olhos se arregalarem como se estivesse vendo o próprio diabo. Ora, veja só a danada da negra procurando chifre em cabeça de cavalo! Depois daquele caso todo, ela ali, cheirando a extrato, em roupa nova, e o corno lá na venda a despachar um quilo de açúcar para o Zé Pedro, duzentos e cinquenta gramas de bicarbonato para o Arcionílio, e outros pesos e outras medidas para os fiados do borrador. Veja só o desplante da mulher, bonita que ela só, se dirigindo para o embaraçado Sebastião, trêmulo como vara verde:
        - Ocê tomô um chá de sumiço, meu nego. Vim dançá uma parte com ‘cê.
        Nada mais faltou ao embaralhado negro para encher-se como biju. No volteio da sanfona de Astolfinho, saíram os dois contando a passos o salão da casa do Antônio Fuleiro, como se fosse em dia de festa. A música ainda mais gostosa no calor e no cheiro da Nora.
        - Senta o sarrafo, Astorfinho!
        A briga arrumada com a chegada do Rufino, entrando de supetão no baile, a faca de cortar salame na cinta, foi de ser contada ainda por muito tempo. Sebastião mal teve tempo de desviar a mulher para o lado dos músicos e o facão tiniu no ar, indo cravar-se num dos esteios da sala. Pegando de surpresa o traído, por um segundo desarmado, varejou-lhe na cara o candeeiro mais à mão, que, por um triz, não o transforma numa tocha humana. Desnorteado com a pancada, Rufino apanhou que nem boi ladrão, sendo corrido, ainda, escada abaixo, para desmoralização do seu nome e da sua venda, posteriormente conhecida como Venda do Capão.
        Para quem não tem mesmo um pingo de vergonha na cara, difícil não foi, corridos uns sete dias do acontecido, ir até a choça da mãe da Nora, implorar pela volta daquela que lhe esquentava o colchão e preparava os bolinhos da venda. Mas, para que sua cantilena não caísse em desprestígio, levou uns presentinhos, “coisa à toa, dona Marieta”, com que conquistou sogra e filha. E melhor argumento não houve.
-o-o-o-o-o-o-
        Tudo morrido e enterrado, pensava o velho Sebastião Seleiro. “Águas passadas, coisas do tempo do cagá de coque”.
        Puxou uma tragada mais longa a ver se voltava, outra vez, no tempo. O peito fracassado misturou, lá dentro, a fumaça e a catarreira grossa que já o fizera cuspir sangue mais de uma vez. Faltou-lhe o ar. E, num sorvo pastoso, uma tosse empesteada botou para fora placas de sangue. Mais tosse a fazer-lhe os olhos esbugalhados pelo esforço. Mais sangue. Pedaços de pulmão. Menos ar. O rosto inchado, a veia do pescoço dilatada, a ronqueira na caixa do peito. Tosse, tosse, tosse!... Golfadas de sangue e farpelas do órgão esbagaçado. Menos ar. Mais tosse. E o corpo tomba sobre a armação da cangalha, a sovela varando-lhe a bochecha esquerda com um filete de sangue.
        Aurélio Pereira, o patrão, montado em seu burro de sela, passa pelo quadro, que não entende:
        - Tirando uma pestana, hem, seu Sebastião?! Assim nem no dia de São Nunca essas cangalhas ficam prontas!
          E bate a porteira atrás de si, rumo da vila.

Cangalha de couro (em selariamarlex.com.br).



11 de novembro de 2016

QUEM MATOU JOÃO SOLDADO?

  
         Donga arriou na mesa quadra e quina, fechando a cacheta de cunca. Era a terceira vez que ganhava naquela noite de três de agosto. Os parceiros de jogo, mais quatro amigos, refizeram a banca de dois cruzeiros cada. Um acendeu cigarro de palha, depois de picar na concha da mão, com canivete amolado, o fumo de rolo grosso e cheiroso. Outro, mais chegado a coisas modernas, enrolou, rápido, o seu em papel Fio de Ouro. Este, o Edvar Abreu.

        Lá fora a noite era ainda mais escura que a sala fracamente iluminada por uma lamparina no centro da mesa de carteado. Chovia há alguns dias, ininterruptamente, aquela chuva choradeira e mansa que entra por dentro dos ossos e das coisas da casa: camas, cadeiras, mesas, janelas, assoalho, traves e baldrames. Motivo mais do que suficiente para a falta de luz elétrica: constante atrapalho nas linhas. 

        - Chuva boa pro arrozal, não é mesmo, Dídimo?

        Distraído, Dídimo não respondeu: atenção voltada para uma trinca de quatro, uma liga de seis e sete de ouros e mais outras cartas menos importantes. Mas, de fato, aquela era a chuva que todo plantador de arroz, como Donga, gostava de sentir. Propriedade na vargem, grande extensão plantada com arroz pacholinha, até a banqueta, nessa época do ano, ficava meio sem serventia, na sua função de irrigar as terras.

        Dídimo, o mão, descartou a primeira e comprou, logo a seguir, o oito de ouros:

        - Como é que você disse mesmo, Donga? – Novo descarte.

        - Essa chuva... boa pro arroz.

        - É verdade! Você deve fazer uma boa colheita este ano, não é mesmo?

        - Por volta de umas duas mil sacas de arroz em palha. Já teve ano melhor, mas este está mujito bom. - Donga sempre a se lamentar do presente.

        Edvar estendeu o braço em direção ao baralho. De repente, dois tiros, vindos da janela entreaberta, estrondaram perto; pelas costas, à traição. Desamparado, seu corpo tomba sobre a mesa, lambuzando de sangue a toalha branca, empapando as cartas.

        A calma cedeu lugar ao desespero. Aqueles homens maduros, cada um mais desatinado, atiraram-se ao chão com medo de que a desgraça aumentasse de proporções justamente sobre suas peles.

        Passado algum tempo, Donga, o dono da casa, correu ao quarto e pegou sua garrucha de dois canos. Alair Moura sacou da cintura o trinta-e-oito que sempre trazia consigo e acompanhou o amigo até a porta da frente. A escuridão, porém, escondera o autor dos disparos. Os dois voltaram à sala e encontraram Antônio Simplício e Dídimo, janela aberta, procurando o assassino, na inocente atitude de quem o iria encontrar, talvez ainda escondido da chuva sob o avançado das telhas. A lamparina mal deu para alumiar as pegadas grandes que ficaram marcadas na terra encharcada. Pés grandes, pisadas profundas.

        Alair, quando chegou à casa do Jáder Pinto, do outro lado da pracinha, encontrou o subdelegado pronto para sair em busca do local de onde partiram os tiros. Este, vez e outra, tinha lá seus apertos com crimes assim. Liberdade não era, por assim dizer, uma vila sossegada. Há alguns meses, dois ou três, a família Peçanha tinha entrado em luta com a dos Moreira: questões de serventia de água de um valãozinho simpático que cortava ora a propriedade de uns, ora a de outros. A cadeiazinha sempre tinha hóspede, coisa sagrada.

        Quando os dois se dirigiam à casa de Donga, o subdelegado tomando ciência do ocorrido através do relato de Alair Moura, a chuva já passara. Mesmo assim, o homenzinho da lei vestiu seu pequeno corpo troncudo com uma capa gaúcha velha de outros invernos.

        O exame das marcas no chão era simples como de se esperar: olhos aguçados, na frente dos quais se ajeitavam uns óculos de aro redondo e fino, levemente folheado a ouro; corpo agachado sobre os calcanhares protegidos por sapatos com galocha; capa gaúcha resguardada do barro.

        Ali estavam os pés grandes chapados na lama. Dedos projetados para fora, como querendo fugir daquela parte de tamanho acima do normal. Pés de orangotango ou coisa parecida. De certo, só isso. O resto são hipóteses: pistoleiro de aluguel, empreitada traiçoeira, quem mandou, quem executou. Coisas da competência do Jáder Pinto, subdelegado nomeado da localidade. Resolução difícil. Enfim, a vida de gente da lei tem dessas mazelas, dessas questiúnculas: palavrinhas preferidas do dono do único posto de revenda de querosene e gasolina, acumulando há três anos essa função ingrata.

        Enquanto Jáder Pinto inquiria um e outro participante daquele joguinho sem pretensões sobre o ocorrido, foi aparecendo um borbotão de gente interessada no saber o que é que houve, o que é aconteceu. Sem perda de tempo, alguns fatos arrumados na cabeça, o subdelegado dirigiu-se à casa de João Soldado, a fim de solicitar-lhe ajuda na captura do assassino.

        Isolina, a mulher, reclamou que ele, mal chegado, já devia sair com aquele tempo ruim. João resmungou qualquer coisa, tornou a se enfiar no dólmã molhado, cobrindo a cabeça com o quepe puído e velho de soldado da polícia meganha. Para se proteger do frio insistente, deu uma golada no litro de cachaça, cuspiu grosso no canto da cozinha de terra batida e fez careta como que desaprovando o paladar da branquinha, se bem que gostasse muito de uma lambada de vez em quando. Acendeu, em seguida, na brasa de um tição, o toco de cigarro de palha e, sem se despedir, saiu, fechando atrás de si uma porta mal-ajambrada no caixonete. Olhou para o céu a procurar uma possível lua desembestada naquela noite e exclamou para seus botões:

        - Eta, noite escura, sô! Eh, breu!

        Longe dali não ficava a casa do Apolinário, soldado também como ele. Chegou manso, desviando-se de uma e outra poça d’água, e bateu firme três vezes, conforme a senha, na porta do companheiro. De dentro, respondeu a voz rouca e cansada do velho soldado já preste a se aposentar:

        - Guenta um pouco, ô João, que já vou abrir a porta!

        - Não precisa, Polinário. Seu Jáder Pinto foi me chamar pra gente procurar quem é que matou o seu Edvar Abreu.

        - Matou quem?!

        - O seu Edvar, da Fazenda do Fogão.

        - Cruz credo! Logo o seu Edvar?!

        - É... Mas anda depressa que ele já tá esperano a gente lá no bar do Tonho Pinto.

        - Já tou ino. Pera um pouco!

        Num tico de tempo, Apolinário já se apresentava grotescamente fantasiado de polícia: o mesmo dólmã surrado do companheiro, quepe amarelado pelo tempo compondo a farda com uma calça de riscado barato; nos pés, alpargatas em melhor estado.

        - Hoje vou de precata porque tá meio frio e num posso tá apanhano constipação. – tentou se justificar ao ver os pés do outro amassando o barro.

        Era justamente por causa dessa indumentária mambembe que o povo de Liberdade andava dizendo que aqueles dois só eram polícia da cintura para cima e de frente. Porque, quando a coisa apertava, era de praxe ver a lei, em suas calças particulares, de fundos, azular da zona contestada. Se bem que era da ciência do povo, desde há uns quatro anos, ao chegar à vila o João Soldado, que aquele marmanjo de cara abestalhada tinha umas cinco mortes nas costas. Todas elas sem punição.

        O bar do Tonho estava atulhado de gente, todo mundo querendo detalhes do caso. As testemunhas não se cansavam de repetir o relato, cada um a seu modo, acrescentando, ora cá, ora acolá, um dado a mais, uma observação mais particularizada, um vaticínio tardio de desgraça rondando a casa. Alair Moura, esse então, exagerava na história da busca empreendida com o Donga, sacando do trinta e oito e o brandindo no ar como um facão, sempre que chega ao ponto em que dizia: “Aí, nós não vimo nada no breu da noite. Ah, seu eu pego aquele filho de uma égua!”

        Jáder Pinto, agradecendo os préstimos de mais de um afoito desejoso de participar da captura do desalmado, começou a vasculhar a vila, auxiliado pelos dois cães de fila piolhentos, o João Soldado e o Apolinário, garboso com suas “precatas” seminovas. Não ficou beco, rua ou quintal sem receber o faro da lei. Até mesmo o ouvido funcionou apurado, no silêncio da noite, a querer ouvir uma respiração ofegante, um passo acelerado a fugir na lama e no barro. Os olhos fracos do Jáder Pinto e do Apolinário se esforçaram inutilmente na percepção de um vulto fugidio, de uma sombra escorreguenta, de uma visão estranha. Nada!

        O jeito foi voltarem os três, desolados, principalmente o subdelegado, ao bar do Tonho, cerca de duas horas depois. Do povaréu que se juntou em volta da conversa, só os mais novos ficaram aguardando o “resultado das investigações policiais” que, segundo Jáder Pinto, “tinham-se mostrado infrutíferas até o presente momento”, vocabulário típico dos relatórios que, lá uma vez ou outra, remetia à Delegacia de Polícia de Bom Jesus, a sede do município, dando conta de seu trabalho.

        - Ô Tonho, me bota aí dois dedos de camulaia.

        Pelo visto, João Soldado estava mesmo sentindo frio: tremendo, virou o copo, a calibrina esquentando goela abaixo, o bastante para dar motivo a uma piada de mau gosto:

        - Nervoso, hem João?!

        - Sê bobo, sô!

        - Tá tremeno que nem vara verde! – confirmou o impertinente.

       - Tou só é com frio! – esbravejou o soldado da cara abestalhada. – Bota mais uma, Tonho!

        O subdelegado, perdido entre uma suposição e outra que cada qual procurava apresentar, não deu importância àquele diálogo. Sorveu, também, o seu gole de pinga, limpando a boca com as costas da mão, e pôs um fim no ajuntamento do bar:

        - Por hoje, não adianta mais. O jeito é a gente começar as investigações amanhã bem cedinho. Apolinário e João podem ir. Boa noite, gente!

        O burburinho remancheou no bar do Tonho ainda por uma boa hora. João Soldado bebeu mais um gole e saiu do bar, aquele porte de embaúba desconforme gangorrando sobre os pés a se agarrarem ao barro no rumo de casa. 

        Dídimo, meio chocado com a cena há pouco presenciada, tomou, também, o rumo das cobertas. Queria descansar o corpo e a cabeça, procurar esquecer o caso. Nos seus ouvidos permaneciam ainda frescas as palavras do amigo acerca da propriedade da viúva Castorina, esta às voltas com uma hipoteca de terras.


        Castorina Andrade, como meeira do finado Zeca Andrade e administradora do espólio, não conseguiu tocar a contento a propriedade da família, a Fazenda da Boa Esperança. Depois da morte do marido, homem de tino e conhecimento, a colheita do café começara a diminuir ano a ano. E, já decorridos três anos do desenlace, estava ela agora, filhos menores de idade, toda embrulhada num negócio mais estranho ainda: a hipoteca das terras, aí incluído o casarão da fazenda, de vencimento próximo e sem dinheiro à vista. Empréstimo para pagar empréstimo não era coisa que o banco fizesse. Nem que aí entrasse a penhora da próxima apanha. Quando os capitalistas inventaram a hipoteca não foi para encher a barriga de ninguém. Era o que costumava dizer o Edvar Abreu, vizinho de fazenda.

        Castorina, velha amiga da família Abreu, não tivera realmente alternativa a não ser o Edvar Abreu, quando precisou da ajuda de alguém para resolver o problema. Prestativo, desprendido de prevenção contra aquela mulher, prontificou-se ele a conseguir um empréstimo em seu nome, no mesmo e único Banco Hipotecário e Agrícola, em Bom Jesus, para tirar a família da enrascada. Por isso mesmo, já duas vezes estivera no estabelecimento de crédito, renovando a ficha cadastral, levando a papelada que essas ocasiões exigem. O gerente Ranulfo Santiago marcara o fim do mês de julho para que o crédito de mil contos de réis estivesse lançado na ficha do fazendeiro, prazo mais do que suficiente para a viúva saldar a hipoteca, a vencer no dia dez de agosto.

        Essa atitude chateou alguns fazendeiros do lugar, de olho naquela alqueirama boa, de colheita garantida, onde só faltava, de vera, alguém com mais tirocínio de administrador. Isto porque, caso a hipoteca não fosse saldada a tempo, a propriedade iria a leilão, e sempre havia a possibilidade de se arrematar por um precinho à toa, qualquer ninharia, a fazenda.

        Júlio Garcia, Donga Nunes e Antônio Simplício haviam declarado seu interesse pela Fazenda da Boa Esperança. Donga era um dos que mais falara no assunto nos últimos dois meses, tendo, inclusive, perguntado reservadamente ao amigo Edvar Abreu se ele não estaria arriscando capital e prestígio num negócio já dado por liquidado, “negócio podre”, insistia ele.

        - Confio muito na honradez de dona Castorina, além de ser seu amigo de muitos janeiros. Tou sabeno dos riscos que corro, se bem que ela tenha dado em garantia a próxima apanha do café. – Explicação até por demais esmiuçada. Mas era do feitio do Edvar essa abertura de alma, essa confiança nos amigos.

        - Dia cinco de agosto a gente vai até Bom Jesus pra eu passar o dinheiro pra ela. Na mesma hora ela liquida a hipoteca. – Edvar Abreu e sua incontinência verbal.


        Ali estava o corpo inchado do ex-dono da Fazenda do Fogão. Inchado, o corpo: dos pés à cabeça. Nesta, olhos salientes parecendo pular da linha do rosto; nariz intumescido esbarrando nos lábios exageradamente volumosos; bochechas salientes. Quadro de não se querer ver com insistência. Visão desconcertante mesmo para os mais duros. Segundo o Dr. Ademar Figueiredo, as duas balas, a da nuca e a do pulmão esquerdo, estavam envenenadas: coisa para matar, mesmo pegando no cotovelo. Plano de não falhar nem de raspão. Isso a causa da inchação.

        Em volta do defunto, curtido a broa de milho e café-com-leite entremeando cochichos e algumas risadas esporádicas, estavam a tristeza sentida dos amigos e a curiosidade gulosa dos demais. Especulava-se, nessa manhã de quatro de agosto, o motivo da tragédia: a história da fazenda hipotecada que ele iria salvar no dia seguinte ao do enterro.

         Das carpideiras assíduas, amantes da dor alheia, não se esperava choro dos mais comovidos, se bem que contritos, assim como o debulhar de lágrimas da administradora da Fazenda da Boa Esperança, agora, duas vezes desamparada. Dona Castorina, além do amigo, cuja morte encomendavam a Deus, através de um terço zeloso e sofrido, as mulheres de véu negro, sentia no coração o desamparo financeiro, causa de uma possível penúria da família, caso nos próximos seis dias não conseguisse acertar as contas com o Hipotecário e Agrícola.

        O irmão mais velho de Edvar Abreu, o Vitório Abreu, em casa de quem o finado aguardava o enterro, não faria, certamente, o mesmo negócio. Ainda mais porque, escrivão de paz, não dispunha de soma tão avultada de mil contos de réis, nem em cartório, nem em sonho. Não bastasse isso, ele não mantinha o mesmo relacionamento com Castoriana, já que não era vizinho como seu irmão fora: fazendas ralando divisas.

        Donga Nunes, tarja de pano preto na lapela do paletó, semostrador dos laços de amizade dele e do defunto, chapéu seguro pela mão esquerda na altura dos rins, cumprimentou Carmelita Abreu, a viúva de Edvar, lamentando o ocorrido e clamando aos céus justiça rápida. Abraçou, comovido, o escrivão, com quem chorou a perda do amigo leal, do fazendeiro próspero e do benfeitor do próximo, assegurando estar a vaga dele, defunto, sem perspectivas de ser preenchida na sociedade da vila. Amealhou um e outro pensamento do Almanaque Biotônico Fontoura mais recente, para garantir que “vida, só uma”, e aproveitou a mão direita folgada para metê-la numa asa de caneca de leite queimado com canela em pau, quentinho de sair fumaça. Como a bandeja de brevidade e broa também passasse por ali, dependurou o chapéu de abas largas no cabide do canto da sala e ocupou a mão esquerda.

        Dídimo Madeira e Antônio Simplício conversavam tão entretidamente no quarto da frente que só notaram a chegada de Donga quando este, com a boca cheia de broa de milho, soprou-lhes alguns farelos misturados a um bom-dia grave e redondo. E engataram numa conversa animada, cujo assunto estava estirado num estrado improvisado, enquanto se aguardava a construção do caixão pelo Zé Carola.


        A manhã de quatro de agosto, mal raiada, pegou Zé Carola na labuta do fabrico do caixão: encomenda de render bom cobrezinho, visto nele abrigar, dali a umas quatro horas, defunto endinheirado.

        Lá pela volta das nove horas, suspensa a diligência para Jáder Pinto fazer sala ao amigo “barbaramente assassinado”, conforme repetira várias e enfáticas vezes o subdelegado, João Soldado deu um pulinho até a oficina do marceneiro, numa bateção de perna de desocupado.

        - ‘om dia, seu Izé!  - gorgolejou o cumprimento o soldado.

        - ‘om dia! – mesma preguiça de abrir a boca.

        - Encomendinha das boa, hem?! – soldado e dinheiro.

        - Sem falsidade, ô João, eu preferia nem tá fazeno esse caixão. Sujeito bão era o seu Edvar, rapaz! Pessoa de num fazer mal a mosca.

        - Verdade... mas uns cobrezinho sempre faz bem, né? Isso sem querer ofender seu sentimento, seu Izé, que sei que o senhor era amigo dele.

        - E do peito!

        - Adesculpe se lhe ofendi!

        Conversa vai, conversa vem, Zé Carola no vira e mexe do serviço, João Soldado no encosta que se recosta na procura de uma melhor posição para levar adiante o bate-papo, pito fedorento de fumo de rolo barato, reco-reco do serrote ofendendo madeira das boas. Num desses movimentos, escorna-se numa das traves de sustentação do barraco-oficina aquele mondrongo desconchavado, gola do dólmã sebenta de dar nojo, aquela cara de besta fugida, aquele porte esguio de embaúba de preguiça: vislumbre suficiente para o Zé Carola observar:

        - Gozado, ô João, esse pezão seu é tal e qual as marca do chão da jinela do seu Donga, hem?! – Brincadeira mais sem graça de quem olhou de cima a baixo o meganha piolhento.

        - Deixa de besteira, seu Izé! Sê bobo, sô! Nem diz um disparate desses!

        O soldado desmanchou aquele tamanho todo na tentativa de esconder os pés grandes, coisa impossível naquele momento.

        Dissera por dizer o Zé Carola, irônico e brincalhão como ele só! O soldado, aliviado, enxugou a testa preocupada com a manga do dólmã, cuspiu entre os dentes, forçando o jato com a língua, ajeitou o quepe, passando a mão imensa pelos cabelos em desalinho.

        - Bão, deix’eu ir andano, seu Izé, que tenho mais coisa pra ver! Inté! E tira essa maldade da ideia!

        - Inté! Foi só brincadeira, ô homem!

        Observação desse quilate é realmente incômoda. E ficou sem ter com quem trocar uma prosa o carpinteiro maritaca. 


        A partir da morte de Edvar Abreu, a chuva, estranhamente, deixara de regar as plantas, encharcar a terra, correr contente pelas grotas verdes de Liberdade. O povo todo já sabia que aquela estiagem súbita, em época chuvosa, era coisa ligada ao assassinato do fazendeiro da Serra do Fogão.

        A Fazenda da Boa Esperança, de Castorina Andrade, estava de leilão marcado para o dia trinta de agosto.

        As investigações policiais revelaram-se inúteis, motivo suficiente para fazer reaparecer as mazelas e as questiúnculas tão caras ao subdelegado. Já por diversas vezes, ele interrogara a população da vila, salvo menores e bichos. Ninguém sabia de nada. Isso levou o subdelegado a solicitar auxílio, através de ofício, à Delegacia de Polícia de Bom Jesus, “providência a ser atendida oportunamente”, conforme resposta rápida dois dias após. 

        Enquanto aguardava perito formado pela Escola de Polícia da capital, Jáder Pinto voltou a seu armazém de tambores de querosene e gasolina, onde não perdia oportunidade de matutar sobre o crime, na tentativa sempre frustrada de desvendar o mistério que o envolvia.

        Por isso é que ele aceitou o convite do Donga Nunes para um joguinho de cacheta naquele vinte e nove de agosto, domingo, de hora marcada para depois da janta. Lá estariam, também, o Dídimo Madeira, o Antônio Simplício, o Alair “Trinta e oito” Moura, apelido que a turma do bar do Tonho lhe pusera depois de umas mil repetições da história: “Aí, nós não vimo nada no breu da noite. Ah, se eu pego aquele filho de uma égua!”.  Joguinho sem compromisso, só pra distração, nas palavras do Donga.


        A toalha de linho branco, lavada com todo o cuidado para não guardar qualquer vestígio do sangue do amigo, estava novamente cobrindo a mesa de jogo. Os dois baralhos de papelão, um pouco gastos, pulavam nas mãos ágeis do dono da casa, carta entrando em carta. A banca, de dois cruzeiros por cabeça já feita, marcou o início da primeira mão.

        - Ô Donga, depois da morte do Edvar a chuva sumiu, hem? – Lembranças do Dídimo a futucar o atento Donga e seus pares, suas trincas e suas ligas de cartas.

        - É mesmo, Dídimo. Agora que o arroz tinha começado a cachear, precisava que a chuva continuasse a cair. Só a banqueta não vai dar conta de aguar aquele arrozal todo, não. Minha esperança é uma novena que a mulher ta fazeno aí. Nessas ocasiões, eu sempre conto com uma mãozinha de São Pedro.

        Jáder Pinto, à esquerda de Dídimo, comprou o sete de paus do descarte do companheiro e o enfiou entre o seis e o oito, empurrando com o cotovelo:

        - Ê gavetinha boa, sô! – ficando bate, não bate,

        O cunca corria tranquilo, principalmente para o subdelegado, que acabara de ganhar a terceira rodada, quando, repentinamente, ao se abrir a janela com um súbito sopro de vento, Donga cai para trás, tombando sobre o encosto da cadeira, como se empurrado por um potente coice de burro. O grito do homem apavorou os companheiros, por segundos imobilizados diante de fato tão despropositado. Imediatamente, levantaram-se os quatro para socorrer o amigo. Qual não foi sua surpresa ao notarem Donga debatendo-se como a querer tirar da garganta mãos firmes que a comprimissem. Jáder Pinto puxou por um braço e Alair por outro, na ânsia de auxiliar o fazendeiro, já com o rosto avermelhado. Assim que o pescoço ficou desimpedido, Donga começou a gritar, num delírio louco:

        - Que é isso, Edvar? Que é isso? Sai de cima de mim, seu merda! Você morreu, você não existe mais! Aquela fazenda vai ser minha, seu fazendeiro de uma figa!

        Entretanto, à medida que Donga vociferava, mais seu corpo se contorcia, se estrebuchava, respiração dificultada, voz gutural. A cena deixou estáticos os colegas de jogo, boquiabertos diante de coisa tão assombrosa.

        - Você não vai me impedir! Argh! Para com isso, Edvar! Me deixa em paz! Você morreu, não pode estar aqui se vingano!

        Jáder Pinto não acreditava no que os olhos e os ouvidos de guardião da lei testemunhavam. Um ou outro acorreram à cozinha a pedir cuidados à mulher do Donga; o subdelegado a postos.

        - Me deixa viver, Edvar, pelo amor de Deus! Eu preciso viver! Eu não devia ter feito isso, mas eu queria aquela fazenda! Não faz isso comigo, Edvar! Eu tou arrependido! Não fui eu quem mandou o João Soldado botar veneno nas balas! Isso foi idéia, argh!, dele, aquele cachorro bernento!

        Dos xingamentos iniciais ao pedido de perdão e ao arrependimento de agora, correspondeu maior agonia, maior desespero, respiração mais difícil, coração descontrolado. Pouco a pouco, as palavras foram cedendo lugar a ganidos e gemidos. Os músculos retesados, os olhos esbugalhados, a boca espumando como um cão danado, Donga estremeceu o corpo na última manifestação de vida que lhe corria pelos nervos. Uma inchação esquisita começou a tomar conta do cadáver, ainda quente, processando uma transfiguração que marcaria em definitivo a vingança de Edvar: as feições de Donga, paulatinamente, foram-se mudando até que assassino e assassinado tivessem a mesma máscara fatal, como gêmeos na morte.

        Nesse instante mesmo, a fraca luz elétrica, interrompida há cerca de dois meses por queda de rede, voltou a iluminar mortiçamente a vila. A chuva, desaparecida desde o dia quatro de agosto, recomeçou a beijar a terra com sua língua líquida, seu lábio fresco. 

        Jáder Pinto e Alair Moura, trinta e oito na cintura, partiram rápido no encalço de João Soldado, pistoleiro de aluguel da Zona da Mata de Minas Gerais, ali na vila convertido em defensor da lei. Antes mesmo de chegarem ao casebre onde o bandido morava com Isolina, ouviram dois tiros, dois estrondos de garrucha quarenta e quatro de se carregar pela boca.

        Do lado de fora da casa, mulher gritando na janela, estava, de bruços, fuçando o barro, o corpo inerte de João Soldado: nuca em frangalhos, pulmão esquerdo estuporado.

Jheronimus Bosch, A nau dos insensatos, 1490-1500 (Museu do Louvre).





        

2 de novembro de 2016

FOI SÓ ISSO O QUE ACONTECEU NO BARRO PRETO

(Conto baseado em fato real, ocorrido na década de 50 do séc. XX, em Carabuçu.)
           
           Os princípios da moral batista, parecia, morgaram como galho de goiabeira o espírito mulherengo e cachaceiro de Agostinho Mineiro. A conversão tinha sido um milagre aos olhos de todos. Homem dos seus cinquenta anos, Agostinho nunca fora propriamente um pai de família: mulher e filhos sofriam por suas arruaças e bandalheiras. Casos os mais diversos, envolvendo mulheres casadas, forneciam matéria para os disse-me-disse de beira de cerca, para os fuxicos em que ele entrava sempre de bobo e saía de macho. Seus filhos adulterinos se espalhavam com pés de capitão-do-mato pela estrada que ligava o Jacó à vila. Mais essa, mais aquela, não havia tempo, cairiam nas conversas, nos boas-tardes-dona-fulana, nos podia-me-fazer-o-obséquio-de-um-copinho-d’água. Marido fora de casa, em passagem de Agostinho, era marido galhado.
            Tudo isso, entretanto, já figurava como coisa do passado. Há seis meses que o cachaço trocara a cama alheia por uma bíblia. A mudança no comportamento de Agostinho fora tão radical que, nem de longe, ele permitia uma palavra menos policiada, uma piada grosseira. Hoje era outro homem, “voltado para as coisas do Senhor Jesus, meu salvador”. E mais de uma vez pregara o evangelho, ainda não bem decorado, como é do hábito da gente do interior. Nas suas falas, permeava com versículos daqui e dali a porqueira de sua antiga vida, modelo suficiente para derrotar qualquer coração mais insensível aos apelos da fé e da lei de Deus. Gostava muito de repetir a parábola do filho pródigo, ele, o próprio, para demonstrar o gozo celeste de sua volta ao rebanho dos eleitos.
            Já não mais a apreensão e a desconfiança eram as companheiras dos moradores daqueles sítios, agora deitados em paz e descanso quanto à honestidade de suas mulheres. Se antes ele era o diabo a se esconjurar, de entrada proibida em mais de uma casa, hoje era o convidado especial para um licorzinho, o bem-vindo para uma conversa decente.
            Obrava bem o Agostinho. É que, debaixo dessa sua nova fantasia, escondia o mesmo gosto pelo lençol alheio, aproveitado na confiança adquirida pela repetição desavergonhada dos textos sagrados.
            Bíblia embaixo do braço, paletó aberto no peito da camisa, a reverência do chapéu, e lá ia ele, marido ausente, a se meter na cama com a comadre fulana, com a irmã cicrana. Aquela solidão das lavouras e pastos espevitava a pouca-vergonha das mais resguardadas, fazia o desvario das mais fogosas, infernizava as frestas e os murundus das meninas-moça. Todas elas no riscado de Agostinho: essa hoje; aquela, amanhã; aquela outra, “no mais tardar, sexta-feira que vem, quando o compadre Noca for levar o milho quebrado na vila, se Deus quiser”. E tirava o chapéu em sinal de respeito, imundícia só naquela cabeça de cafajeste.
            As mulheres se entregavam mais tranquilas às suas competências sexuais, no parecer de que os maridos acreditavam mansamente nos propósitos do novo irmão em Jesus. E a bandalheira se alastrava que nem tiririca. A cada dia, era uma virtude a ir para as cucuias, uma fidelidade para o caixa-prego, uma virgindade para o cu do conde.

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            Enfurnado num vão de pedra na curva do Barro Preto, ainda não de todo curado do desarranjo intestinal que sobreviera à notícia de que sua mãe viúva e suas três irmãs esperavam filhos de Agostinho Mineiro, João Vitório assentava as armas da tocaia vingadora: espingarda, garrucha de dois canos, revólver, enxadão, foice e um facão de mato; uma caixa de cartuchos e uma de bala; ódio e ferocidade; desatino e desejo de vingança. Essas últimas, armas mortais. Por sua cabeça avariada, o demônio pintava com cores carregadas as caras risonhas das criancinhas, seus futuros sobrinhos e irmão, a rir-lhe com deboche, as gengivas banguelas, as cabeças carecas, da sua inocente crença na conversão daquele fauno sertanejo: lobisomem a emprenhar vacas e vitelas, as mulheres.
            Faria um acerto de contas com o cachorro safado. Era para isso que estava ali, os intestinos a se remoerem de dor. Era para lavar a honra da família; ele, o arrimo, o único homem. E pensar que sua mãe, viúva ainda nova, pudesse ter caído na conversa daquele salafrário. No primeiro encontro na igreja, aquele jeito visguento do canalha a se curvar respeitoso, tudo fingimento, para cumprimentar a família:
            - Dona Carmita, muito boa tarde. Como tem passado a irmã em Cristo Jesus? E as meninas como vão?
            Seria possível uma pessoa fingir aparência de evangélico, bíblia embaixo do braço, cultos aqui e ali, pregações e outras coisas, só para poder se aproximar daquelas mulheres? Seria possível, meu Deus, que a graça tinha escapado do coração de suas irmãs e mãe, tão virtuosas elas eram? E logo as quatro de uma vez só?!
            - Pelo amor de Deus, é possível um trem desses?
            Mas ali estava ele, feito bicho na toca, esperando a vítima passar para a vila, em demanda das compras da semana, caminho de ida e volta, único caminho: a curva do Barro Preto, meia distância entre a vila e o Jacó. Aninha-se o desesperado entre duas imensas pedras redondas e negras, uma vigia natural para os dois lados da estrada de chão. Ingazeira solitária projetando sombra de lua cheia na furna em que se escondia.
            Segundo seus cálculos, o porco imundo viria pela esquerda, naturalmente saboreando em pensamento as carnes da família Vitório: Maria Hortência, Adelaide, Creusa e Carmita, sua mãe. Logo sua mãe, merda?!
            - Mas esse canalha miserento vai ver com quantos paus se faz uma cangalha. Esse filho de uma égua vai provar o chumbo da minha espingarda, a espingarda do meu velho, que Deus o tenha!
            Ele, as armas, a tocaia: elementos a se fundirem pelo ódio, pela sede de vingança. As duas pedras, a ingazeira, ele ali como um lagarto, alojado na loca estreita. A estrada manhosa e mole no andar descansado dos animais de sela; um ou outro tropel mais apressado de cavalo novo, em marcha, ganhando chão, deixando para trás as casas de sua beira. Certamente essa estrada iria trazer até a mira de sua quarenta-e-quatro, até ao alcance de sua foice, o peito, o pescoço, o saco do patife.
            Ele, a tocaia, as armas. Espingarda azeitada, limpa, cartuchos novos; os dois cães ganindo sobre as espoletas impacientes; coronha bordada. Garrucha de dois canos, carga dupla, perdigotos de aço estragando quando entram e saem; cabo de madeira lascado num tiro anterior. Foice, facão de mato e enxadão, lâminas reluzentes na lua cheia; fios afiados de fender a carne, rasgá-la.
            As armas, a tocaia, ele. Olhos inflamados, campos dos fatos de ontem: a morte do pai; o choro desesperado da mãe; irmãs pelos cantos da casa, desatinadas; ele segurando o coração com o punho na garganta, olho no caixão, o braço do tio sobre o ombro. Coisas passadas nas lágrimas e nos suores do depois, da responsabilidade da casa, da preocupação com as irmãs solteiras, pasto aberto a cavalos soltos ao largo.

-o-o-o-o-o-o-

            O caminho que desce o morro conduz, em direção à curva do Barro Preto, dois cavaleiros; um, o alvo; o outro, a testemunha. Tatão Camargo, roseta no vazio da mula, cigarro no canto da boca, mantém a conversa animada com o compadre. Agora, convertido ao evangelho, Agostinho só então podia desfrutar da amizade do padrinho de seu primeiro filho, homem severo nos negócios e na moral.
            O primeiro tiro do revólver derrubou da besta baia o reprodutor desvairado, o ombro esquerdo estraçalhado. Tatão estacou a ruana e saltou para socorrer o companheiro. Transfigurado pela dor, Agostinho se levantou, apoiado no amigo, costas a se voltarem para o ponto de onde partiu o disparo. Um novo varou-lhe os intestinos, dobrando-o sobre a barriga. Tatão, na iminência de receber um balaço, escondeu-se atrás da montaria, deixando a descoberto as canelas e uma parte das coxas. Não levou nem um minuto para que o carrasco, fogo nos olhos, o diabo no corpo, se apresentasse em fúria para completar o serviço. Tatão ainda tentou inutilmente conter aquela fúria insana:
            - Que é isso, João? Ficou maluco, perdeu o juízo?
            - Cala a boca, Tatão, senão sobra pr’ocê também!

-o-o-o-o-o-o-

            O que sobrou de Agostinho testemunhava a carnificina do Barro Preto: seis tiros de revólver, dois de espingarda, dois de garrucha esburacadeira, dezessete foiçadas, os colhões espalhados a facão, a cabeça afundada a olho de enxadão e merda, muita merda em volta das partes esparramadas na estrada. João Vitório lavou os intestinos estragados no sangue de Agostinho.
            Três dias depois, o justiceiro foi encontrado morto, sentado junto de um angico, o braço a proteger-lhe a cabeça. Um tirambaço de garrucha arrebentara-lhe os miolos. Dera por encerrada a missão da sua vida.

Lua minguante na Bicuda, com intereferência de árvores (foto do autor).



27 de outubro de 2016

XÔ, BICHO! XÔ, SACI!

(Conto baseado em história contada por minha mãe.)
A cachorrada latia no alvoroço do clarão da noite enluarada. Lá fora corria um vento fino e assobiador em cabeça de estaca de cerca, em parecença de noite excomunguenta de bicho dos eitos dos infernos. Era de não se botar as canelas além do batente da porta, muito menos o nariz.
Toniquinho Pinto, veterano conhecedor de saci e demais aparições noturnas, asseverava grandes pompas para daí umas duas horas, lá pela volta da meia-noite, conforme é do costume dessas manifestações. “Sim, senhor, hoje é festança das grandes em terreirão de café, que dirá em descampado de guiné alto ou curvas de figueiras tortas. Tá chegano a época da desova do saci”. Que saci botasse ovo era postulado que não precisava de prova, tal e qual na matemática, ciência de que também costumava afiançar conhecimentos, além de alguns ditirambozinhos de caxambu em noites juninas, “coisa essa que faço num romper de ideia, num faiscar de imaginação”.
Aboletado no alto dessas três pilastras de sua mais alta cultura, Toniquinho nem atendeu a ponderação do sobrinho, descrente de assombrações, ao afirmar que “enquanto a fêmea do saci cuida do ninho, o macho vira peste na defesa dos ovos”. E num e noutro parecer mais científico, tratou de esclarecer a todos a genealogia desse ente, segundo ele, filho mal acabado do bicho ruim, que escapou dos quintos dos infernos, desgostoso da forma que lhe foi dada pelo seu criador, “com letra minúscula”, frisava, e resolvido de bagunçar a raça humana em gozações e medos, que espalhava no granel e no varejo. Para ele, nessas ocasiões, desafiar a pestilência do macho era a mesma coisa que padecer de umas boas chibatadas em pelourinho do tempo dos escravos.
            - O de mais interessante nessa raça é que o ovo, do tamanho do ovo de avestruz, tem duas gemas: uma vermelha e outra roxa. A clara é leitosa que nem o próprio leite. E doce que nem mel.
            Conhecimentos assim tão pormenorizados e detalhados não são de se desprezar, motivo mais do que suficiente para fazer o sobrinho Honorino Pinto meter os beiços de revesguete, num risozinho zombeteiro:
            - Mas, tio, como é que o senhor sabe dessas coisas todas? Por acaso, o senhor já comeu ovo de saci?
            O velho olhou para lado e outro, telhado e assoalho, esquadrinhando presenças invisíveis naquele fundo de noite tenebricosa. Então o Honorino não tinha tomado conhecimento pela boca dos parentes? Se havia coisa que Toniquinho fazia questão de ostentar, era a história da gemada de ovo de saci que tomou, quando no romper dos dezoito anos.
            - Vinha eu em marcha picada, na pressa de chegar em casa, quando o cavalo, o Deixa-vim, lembra dele?, passarinhou nas patas traseiras. Isso era uma noite de treze de agosto. Foi em 1943. Eu tinha acabado de sair de um baile em casa de Castorino da Zilda, um mineiro claro e gordo, pai de quatro moças bonitas, que tava sempre animano a Vala com uma dança, na esperteza de escolher genro. O Deixa-vim, mais do que acostumado a viajar de noite, o bicho enxerga dez veiz mais do que gente; bem, o Deixa-vim, rédea solta, estacou na passagem do sítio do Nilo, ali onde hoje tem o curral. Naquela época, era tudo plantado de milho. Golpeei o animal na pá e senti a roseta encontrar resistência de couro retesado. Tornei a chuchar a espora com mais força, na mesma hora em que dei com o rei na prancha do pescoço dele, dano um galeio no corpo, em modo de quem já tá de saída. Nada! O cavalo tinha arrumado uma empacação que eu nunca tinha visto igual. Como a noite tivesse clara, corri os olhos em volta, para apurar a situação e ver se achava a razão daquela atitude. Cobra não era, nem cascavel, nem surucucu, que era o que mais tinha naquela zona. Talvez uma cotia? Que o quê! Fui, então, seguino com os olhos no avançado da cabeça do cavalo e deparei, a uns três metros mais adiante, com um ovo grande, branquinho, branquinho, com a casca alumiano no luar. Pensei cá comigo: só pode ser ovo de ema. Tá muito grande para ser ovo de criação de quintal. No que imaginei, apeei do animal, passei a mão naquele bitelo daquele ovo e meti no embornal. O danado tava quentinho ainda! Casca dura, foi sem quebrar até em casa. Lá chegano, ainda dei com a nega Anunciata mexeno no fogão, ferveno água pra tomar banho. Falei com ela: Ô, Anunciata, me aprepara uma gemada com esse ovão aí! Pela fome que trago do baile do Castorino, só dá pra deixar um golezinho pr’ocê exprementar.
            Honorino, nessas alturas, já se arrependera de provocar o velho tio. Era quantas vezes alguém tocar na história, tantas vezes ele repetir com a riqueza de detalhes que só a velhice nostálgica é capaz de fornecer. Ele mesmo, o Honorino, já tinha ouvido essa mesma história cerca de umas quinze vezes em seus trinta anos de vida. Gostava de ouvir o velho contar os casos dos antigamentes, é verdade, mas tinha absoluta descrença por tudo que dissesse respeito aos desvãos da noite. Para ele, tudo isso não passava de falta do que fazer da gente antiga, mais preocupada em se fazer respeitar pela quantidade de medo que conseguisse infundir nos mais novos. Mas ele, Honorino, letrado em colégio da cidade, conhecedor de um e outro poste de luz elétrica, sabedor das mitologias dos gregos e dos romanos, dois povos, esses também, sem nada com que se preocupar, ele, Honorino, fazia absoluta questão de passar por cima de tudo isso, com aquela audácia fornecida pela ciência livresca, pela fronte altaneira de quem tivera tomado contado com as Humanidades. Não era de se impressionar com coisa pouca, depois que lera sobre o processo de mumificação dos faraós egípcios, mortos mais que mortos, apesar do corpo ainda conservado.
            A luz da lamparina vacilava, embaciando a vista das pessoas ao redor da conversa. Biscoitinhos de polvilho, cafezinho quente cheirando no fogão de lenha animavam a roda que se deliciava e tremia com os causos do tio Toniquinho. Rita era a indagadeira:
            - Mas, tio, e aí?
            - Minha filha, a Anunciata esconjurou o tamanho do ovo e disse que nunca tinha visto um tal e qual aquele: nem de ema, nem de avestruz, nem de cobra. “Ô, Toniquinho, ‘cê vai querê gemada desse ovo, se ‘cê nem sabe do que qui é?”. Sem discutir meu pedido, mas. com muito custo, quebrou o cascão do ovo e derramou numa bacia de ágate da China para bater. Pessoal, o pinote que ela deu quando viu aquelas duas gemas diferentes foi desconforme. Me gritou, no que corri até o fogão para ver que bicho que era. Nada! Só um ovo com duas gemas. Falei com ela para tirar a mais escura, que já devia de ‘tar galada, e fazer a gemada só com a outra. Fez e bebi. Só fui descobrir que era ovo de saci quando, no outro dia, falei com o Ditinho Xará. Aí ele me deu tudo que era explicação. Isso que eu falo pr’ocês. E disse mais o Ditinho que, se eu tomasse da gema roxa, tinha virado saci também. Desconjuro! Cruz credo!
            Mais e mais a cachorrada aumentava a confusão no terreiro. Toniquinho explicava, nesse momento, estar chegando a hora e, mais do que nunca, era preciso dizer uns desagravos, chamar uns santos para proteger a criação e livrar a casa de alguma malvadeza dos encapetados.
            - Tio, sabe que eu não acredito em nada dessas bobagens que o senhor conta? Saci só existe aqui na roça, nesse cafundó de Judas. Na cidade, onde tem luz elétrica, clareando a noite, como é que não se ouve falar em saci?
            Súbito, um barulho ensurdecedor se fez ouvir no telhado da casa, como se fossem arrobas e mais arrobas de milho chovendo de uma grande altura.
            - Olha as suas besteiras no que tão dano, seu Honorino sabidão! Fala mais besteira e essa casa pode ficar sem cumeeira!
            - E eu tou lá acreditando nisso! – gritou o sobrinho desaforado, já desconfiado do barulho estranho. – Vai ver, o senhor aprontou um das suas com o campeiro.
            O vento zumbiu feio nas lascas de cerca e varreu o alto da casa, arrancando telhas, papéis velhos lançados ao ar. Uma profusão de ave Maria cheia de graça o senhor é convosco encheu a mesa de biscoitos, no medão que tomava conta das mulheres; uns ai meu Deus, ai minha Santa Barba, meu São Jerome respondiam pelos homens desencorajados.
            - Tá veno no que tá dano a sua falta de respeito, seu desbocado?!
            - Isso é só um vendaval, uma tempestade de vento! Será que vocês não estão vendo isso, meu Deus do céu? – Honorino tentando convencer os parentes dos faniquitos da natureza.
            - Deixa de sê bobo, menino! Olha o que eu tou te dizeno!
            - Quer saber de uma coisa, tio? Se saci existe mesmo, eu exijo que um entre aqui, que eu afundo o cachimbo goela adentro e ainda arranco aquele gorro vermelho, de que o senhor fala, mal costurado da cabeça dele.
            - Crendospadre! Virge Nossa Senhora! O desabusado está desafiano o coisa ruim.
- Para com essas bobage, Honorino! – A vez de sua mãe, transparente de medo, pedir.
A porta da casa se abre na violência do vento em rodamoinho que contorna Honorino e o suspende pela cumeeira destelhada, corpo como folha seca a balançar no ar. Mais de um se benze e se ajoelha. O velho Toniquinho, vibrando a gurumbumba, ainda gritou para o sobrinho voador:
- Bem feito, miserento!
Uns se agarrando aos outros, outros se abraçando a uns, o velho soberboso de sua ciência em saci, aparentando calma, começou a mascar uma bolachinha de polvilho molhada em café. O terror estampado em mais de uma cara familiar.
Enquanto isso, o terreirão era uma barafunda só: cães latindo; lapadas de chicotes cortando a noite; assovios mais do que conhecidos, misturados a gargalhadas debochadas; gritos de gente, mais precisamente de homem sendo açoitado; criação em cacarejos desesperados e voos destrambelhados. Os gritos de homem a superar a balbúrdia daquela noite de agosto.
Por fim, a calma. Silêncio profundo e manso: tempestade que passou.
Pela porta aberta com o vento, inesperadamente, é lançado aos trambolhões o corpo inconsciente e lanhado a chicote de Honorino Pinto, com toda a sua ciência e sapiência.
Ao fundo, junto do chiqueiro, gargalhadas e assovios ainda mais debochados.

Saci, em desenho a nanquim de Monteiro Lobato (em fantasia.wikia.com).